Publicidade
Publicidade
Voltar NOTíCIAS

É possível falar em “apagão de dados sobre livros no Brasil” em 2026?

15 de outubro de 2026
6 min de leitura
Pesquisas sobre o setor do livro no Brasil têm boa parte de seus dados disponíveis ao público geral, prática pouco comum no mercado internacional | © Reprodução
Pesquisas sobre o setor do livro no Brasil têm boa parte de seus dados disponíveis ao público geral, prática pouco comum no mercado internacional | © Reprodução

Artigo publicado pela revista piauí traz questionamentos produtivos sobre a disponibilidade de alguns números, mas erra feio ao não considerar informações básicas do mercado

Publicidade
Publicidade

A revista piauí publicou em seu site um artigo cujo título foge ao caráter preciso e equilibrado que marca seus trabalhos, “O apagão de dados sobre livros no Brasil” (13/10/2026). O subtítulo é bem mais adequado ao teor de fato do texto: “As falhas da base do ISBN, que identifica as publicações no país”.

O artigo é assinado pelo editor Thomás Daniel Vieira, da editora Coragem. O autor reclama, não sem razão, que a interface de acesso às informações do ISBN no Brasil deveria ser melhor, e que uma API para consulta dos dados poderia estar disponível e ser de fácil acesso. A Câmara Brasileira do Livro (CBL, responsável pela Agência Brasileira do ISBN desde 2020) não poderia ter respondido “não existe” quando solicitada a compartilhar a aplicação — como Vieira explica bem no texto, a API leva informações de um lugar (banco de dados) a outro (no caso a interface do site da Agência), portanto ela existe. Mas o artigo toma como certas algumas premissas falsas.

Em nenhum lugar do mundo o ISBN é o “contexto ideal para extrair informações precisas sobre o mercado editorial”, o que tornaria uma pesquisa neste banco de dados, com este objetivo, incorreta e imprecisa. Responder à pergunta “Por que o resultado da pesquisa [Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro] é tão diferente da quantidade registrada na base de dados do ISBN?” é relativamente simples — embora o fato dessa informação não ser prontamente acessível a um editor de livros possa ser encarado pelo instituto que faz a pesquisa e por quem costuma comunicar e debater os seus resultados, este PublishNews inclusive, como uma falha a ser corrigida no futuro.

A Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro é realizada há 20 anos, e em 2020 passou para a Nielsen BookData. Antes na Fipe, o levantamento é coordenado desde o início pela “responsável pela pesquisa da Nielsen” — como diz o artigo da revista —, profissional reconhecida internacionalmente pelo trabalho rigoroso com dados estatísticos e profunda conhecedora dos meandros do mercado editorial global.

Publicidade

O instituto reforçou em nota ao PublishNews que a coleta das informações é feita por meio de um questionário online enviado às editoras do país. Durante o período de campo, a CBL e o Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) divulgam comunicados aos seus associados e releases para a imprensa, convidando as editoras a participarem. Nem todas as editoras brasileiras topam participar: na verdade, a estimativa é que pouco mais de 10% delas respondam ao questionário (cerca de 120). Os resultados são estimados por meio de inferência estatística, tendo como base o total do mercado apurado em um Censo de Editoras realizado em 2010. Antes da divulgação final, os dados coletados passam por um processo de validação conduzido por uma comissão de pesquisa composta por representantes das duas entidades contratantes, ou seja, especialistas experientes do mercado do livro. A amostra atual representa aproximadamente 70% do faturamento do setor. Salvo engano, é a pesquisa mais longeva deste porte realizada na América Latina e serve de modelo para outros países.

Mas voltando ao ISBN: o número de ISBNs adquiridos na Agência Brasileira não corresponde ao número de ISBNs publicados naquele ano — muito menos de livros comuns. O número regulador tem um papel fundamental na isenção fiscal do papel adquirido para imprimir volumes: empresas editoriais que produzem manuais de toda espécie, de carros a batedeiras, por exemplo, se utilizam do ISBN para aplicar a imunidade de tributos a seus materiais impressos. Muitas editoras — incluindo as mais sérias, é um procedimento habitual — compram lotes de ISBNs para uso futuro. Às vezes as editoras preenchem os dados de um mesmo livro aos poucos, o que impossibilitaria um recorte certeiro. Os ISBNs também são diferentes para um mesmo título em diferentes versões, seja numa venda com brindes, edições digitais (e-books, audiolivros) e outros eventuais formatos. Cada vez que um livro ou uma publicação sofre mudanças significativas, precisa receber um novo ISBN. Materiais vendidos em cursos, por exemplo, também podem ser registrados, bem como softwares educativos, anais de seminários, catálogos de exposições, relatórios públicos… enfim, a lista é longa.

Além disso, é praticamente impossível verificar quais dados estão relacionados a obras de autopublicação — que na imensa maioria dos casos não são contempladas pelas pesquisas em razão de seus modelos específicos de comercialização e distribuição. Desbravar o mercado de autopublicação no Brasil hoje é uma missão em aberto e esbarra nas convenções globais de opacidade dos dados das grandes empresas de tecnologia, notadamente, por aqui, da Amazon (que mantém e promove o serviço de autopublicação Kindle Direct Publishing).

Como jornalista interessado no mercado editorial brasileiro, tendo a concordar que no geral as empresas do setor são arredias à divulgação ampla de dados — mas também seria inocência não considerar que deter informações e mantê-las sigilosas à concorrência é hoje em dia uma estratégia comercial básica.

O Brasil é um dos poucos países da América Latina (e talvez do mundo) cujas pesquisas têm uma boa parte de seus dados disponíveis ao público, com mérito para as instituições e empresas que patrocinam as apurações.

Entre os levantamentos disponíveis, além do já citado, estão as pesquisas Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, Panorama do Consumo de Livros, Painel do Varejo de Livros (BookScan), mais recentemente saiu também a primeira edição do Perfil e Hábitos do Leitor Digital Brasileiro (patrocinada pelo Skeelo) — essas realizadas pela Nielsen em parceria com entidades e empresas —, Retratos da Leitura no Brasil e Relevância e Impacto do Setor Livreiro no Brasil, além dos registros de ISBN. Entre outros levantamentos pontuais, como o Guia de Editoras — Mapa do Setor Editorial Brasileiro, reunindo 1.047 editoras de todo o país, divulgado em setembro.

Em nota, a Câmara Brasileira do Livro disse ao PublishNews que preservou todos os dados recebidos da Biblioteca Nacional quando assumiu a gestão da Agência Brasileira do ISBN, em 2020, “estando todos os dados devidamente preservados” — outro dos questionamentos da matéria da piauí (isso pode ser melhor esclarecido também, vamos atrás).

Claro que é possível imaginar formas de colocar estes e outros dados ainda mais à disposição do público, seja ele especializado ou não — montar um dashboard é uma tarefa simples neste nosso mundo hiperconectado. Também pensar e elaborar outras investigações, inclusive por parte do poder público. É necessário ainda ampliar os espaços de divulgação e aprofundar os debates sobre metodologias e resultados, e até mesmo questioná-los. Mas falar em “apagão de dados” sobre o livro no Brasil, hoje, é, no mínimo, um injusto exagero.


*Guilherme Sobota é jornalista, pesquisador e editor-chefe do PublishNews.

Compartilhar:
Guilherme Sobota
Guilherme Sobota

Editor-chefe do PublishNews. Jornalista formado pela UFPR, Sobota começou a carreira no Jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná. Depois de trabalhar com assessoria de impre...

Ver todos os artigos →

Leia Também

Gostou deste conteúdo?

Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email

Toda segunda e quinta
Publicidade