Adulto pode contextualizar, mas criança não. E o professor não dá conta de trabalhar, sozinho, a questão do racismo em sala de aula. Esse é o argumento do escritor e pesquisador Alberto Mussa ao defender a proibição do uso da obra de Monteiro Lobato nas escolas. "Nesse ponto, acho que a gente tem que ser radical. É uma obra imprestável para criança". O assunto veio à tona na tarde desta quinta-feira (11), durante a mesa “Permanência e recriações da Mitologia Africana no Brasil”, no Fórum das Letras de Ouro Preto. O nigeriano Felix Ayoh’Omidire, também convidado do debate, concordou e foi além dizendo que tem “essa briga com Lobato” desde 2004 e que, por ele, algumas obras de Gilberto Freyre também seriam proibidas.
Mais tarde, Mussa disse ao PublishNews que sua preocupação maior é com a proteção da individualidade da criança negra que hoje, contra todas as expectativas de Lobato, lê seus livros. “Não acho que o livro dele eduque um racista. A questão é que o Lobato não acreditava que uma crinça negra fosse ler um livro. Ele escreveu para um público branco. E quando a criança negra lê aquela frase, é claro que ela se sente atingida”, comenta.
“Uma coisa é o livro que um adulto vai ler. Um adulto tem capacidade crítica, é capaz de contextualizar historicamente um autor, mas uma criança eu não acredito. E não acredito que um professor, por mais treinado e mais bem intencionado, vai tirar aquela sensação da criança negra e evitar aquele impacto negativo do livro”, argumentou.
Para ele, o que está em jogo é a proteção da criança. “Não podemos permitir que uma criança sofra, ou se sinta inferiorizada e humilhada por causa de um grande autor, de um gênio.”
“A obra do Lobato, para criança, não presta”, reafirmou. E ele não fica apenas no Caçadas de Pedrinho, e acredita que a Emilia seja o grande personagem da obra de Lobato, quem melhor expressa a opinião dele, e também a mais preconceituosa. Mas comentou que nas adaptações para teatro e tevê as histórias funcionam melhor. Isso porque quem faz a adaptação ai deixar de fora esses elementos.
Mussa disse que não se discute a importância do escritor do ponto de vista literário pelo fato de ter sido um dos criadores da literatura infantil no Brasil. Sua genialidade, a concepção de sua obra e sua figura como nacionalista também são indicutíveis. “Mas não interessa se ele é genial, aquela criança deve ser protegida”, disse. E completou: “O estado brasileiro não pode estimular o consumo desse livro, mas ninguém falou em censurar. O que não podemos indicar o livro”.
[A cobertura do Fórum das Letras de Ouro Preto pelo PublishNews tem o apoio da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.]







