Diários de Abu Dhabi: Adeus a Abu Dhabi e retorno ao Brasil
PublishNews, Paula Cajaty*, 11/05/2018
Paula Cajaty termina o seu diário contando como foram os últimos dias da feira e a volta para o Brasil

Os últimos dias em Abu Dhabi foram curiosos, pois a Feira mudou muito de perfil. Ao mesmo tempo que os profissionais do mercado editorial já tinham ido embora, o movimento de público e de vendas aumentou bastante, com uma grande presença de grupos escolares e famílias. Isso permitiu que nos empenhássemos em circular mais pelos corredores e estandes e foi possível, também, aproveitar o tempo para testar o apoio concedido pela Feira, firmando os formulários de pedido de apoio.

Bem, como descobrimos, o apoio não é automático. Explico. Todos os livros passam pelo processo de "classificação", igual ao que acontece no Brasil com o conteúdo da televisão aberta. Assim, nos Emirados Árabes Unidos não é possível editar um livro sem esse processo prévio de classificação, e a chancela do governo de que o livro poderá ser editado é imprescindível para que a publicação seja realizada e possa ser comercializada. Por este mesmo motivo, não recebemos o valor do apoio imediatamente após a assinatura do formulário de intenção de compra de direitos autorais para fins de tradução. Primeiro, submetemos um formulário à apreciação de um órgão - o Ministério da Cultura e do Turismo -, que avaliará o livro e identificará se ele é passível de receber o apoio, segundo as suas diretrizes.

Infelizmente, talvez pelo crescimento exacerbado do país em tão pouco tempo e pelo processo de adaptação da cultura a critérios ocidentalizados, ainda não há muita transparência sobre quais seriam os assuntos que facilitariam - ou dificultariam - as obras inscritas de receberem o apoio proposto. Também não é fácil saber por quais motivos um livro teve sua candidatura aprovada, e outro não. Pelo que foi conversado com editores e organizadores do evento, isso ainda é uma questão que está em desenvolvimento, pois, afinal, trata-se de uma confederação de monarquias árabes (e não é uma monarquia britânica, só de fachada, é uma monarquia real), o que torna as decisões do país muito centralizadas nas mãos dos príncipes que realmente detêm o poder.

De outro lado, é realmente impressionante observar as imagens de Abu Dhabi nos anos 1960 e compará-las com 2018. Como Juscelino, que fez "50 anos em 5", Abu Dhabi parece ter desenvolvido 1.000 anos em apenas 58. Críticas à parte, o comprometimento dos governantes com o crescimento do país e das cidades - e, portanto, a atenção às demandas dos cidadãos - é um fato inequívoco que merece ser considerado. Muito embora seja relativamente rápido construir prédios e infraestruturas, os costumes do povo não avançam com a mesma rapidez e é isso o que torna a cidade ainda mais interessante. 

Uma visita ilustre aconteceu exatamente na tarde do último dia da Feira: o Dr. Debrair Izaias da Silva, Chefe do Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Abu Dhabi, veio conhecer a LIBRE. Conversamos bastante sobre política e sobre as trocas econômicas e culturais entre dois países que se destacam pela produção de petróleo no mundo. O Dr. Debrair ficou comprometido conosco de levar nossa experiência cultural ao Itamaraty e buscar novas iniciativas de troca cultural que possam estreitar os laços entre brasileiros e os povos do Oriente.

Para descontrair, depois de fecharmos o estande, fomos à praia de Corniche para ver o pôr do sol e relaxar um pouco. A noite seria longa e difícil: o horário de acordar era às 2h da manhã, para um voo de Dubai às 7h.

A maratona foi boa, dormimos das 21h às 2h, tempo suficiente para recarregar as energias e aproveitar a viagem suave a bordo de um Mercedes Benz a 180 km, dirigido por um nepalês, nas grandes retas entre Abu Dhabi e Dubai. Ao subir no avião, um sentimento de felicidade e muito alívio - agora já poderíamos voltar a pôr os braços de fora - tudo misturado com a percepção do dever cumprido e com a sensação de que há ainda muito trabalho a ser feito para compreender melhor e intensificar as trocas culturais com estes países excêntricos, cheios de curiosidades e tão absurdamente diferentes de nós.

Ma'a salama!

Praia de Corniche
Praia de Corniche


Paula Cajaty é editora da brasileira Jaguatirica e da portuguesa Gato Bravo, escritora e Diretora de Comunicação da Libre. Junto com Mariana Warth, Paula participa da Feira Internacional de Abu Dhabi à convite da organização da Feira, com apoio da Nuvem de livros.

[11/05/2018 08:00:00]