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A fortuna a mim devida

01 de fevereiro de 2005
2 min de leitura

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Soube por um colega, que teria lido na Veja, que ando escrevendo muitos prefácios, orelhas e apresentações de livros, na sempre honrosa companhia de Luis Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony e Ruy Castro. Somos, segundo a matéria, os mais requisitados. “É verdade que você está faturando uma boa grana com isso?”, ele me perguntou cheio de inveja. Quase menti dizendo que sim, era isso mesmo, estava até pensando em deixar o jornalismo. Mas a surpresa me impediu: conta-se nos dedos o que produzi no gênero. Só imaginava o que ia dizer agora às pessoas a quem recusei esse tipo de pedido, e que não são poucas. Costumo argumentar que meus editores Luiz Schwarcz e Roberto Feith sempre me aconselharam a alegar o seguinte: “Se eu fizer para você, vou ter que fazer para todos que me pedirem”. Jogo a culpa pra cima deles e acrescento: “Além disso, não faria outra coisa na vida”. Me reservo, portanto, para as exceções, que no ano passado foram duas, se não me engano: uma para uma antologia de textos de Hélio Pellegrino e outra para o livro de Guilherme Fiuza, Meu nome não é Johnny. (…) Recebi tão pouco pelas duas apresentações que temo revelar quanto e decepcionar os que acreditam que descobrimos uma forma de enriquecimento rápido e fácil. Não deveria confessar, por ser antiprofissional, mas pelo prazer da leitura dos dois livros, não digo que pagaria para apresentá-los, mas sinceramente trabalharia de graça. Segundo meu curioso colega, a matéria informava que somos pagos para elogiar, ou seja, para dar uma força aos amigos. Disse-lhe que em parte isso é verdade – de fato, nunca fui convidado para dar força a um inimigo – mas que a atividade não chegava a ser uma fonte de renda. Para isso, seria preciso que eu escrevesse pelo menos umas duas ou três orelhas por semana, e nem assim.

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