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O que estou lendo com Maurício Eloy

15 de outubro de 2026
3 min de leitura
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"Schulz parece perceber o sagrado nas pequenas coisas, aquilo que tantas vezes passa despercebido aos nossos olhos. Penso muito nisso diante de um mundo cada vez mais desencantado", diz o livreiro de São Paulo

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“Estou relendo Lojas de canela (Editora 34, 2019), do escritor polonês Bruno Schulz (1892-1942), um livro que me marcou profundamente em 2010, quando chegou às minhas mãos de uma maneira curiosa. Na época, eu vendia livros usados numa feira de antiguidades no Shopping Center 3, em São Paulo. Um rapaz, professor de literatura, costumava me oferecer os exemplares que recebia das editoras. Certo dia, apareceu com cerca de 30 livros. Recusei apenas um: Lojas de canela. Surpreso, ele me deu uma verdadeira aula sobre Bruno Schulz e insistiu para que eu ficasse com o livro de presente.

Comecei a leitura ali mesmo, na banca. Quando cheguei em casa, passei a noite pesquisando sobre o autor e sua obra. Fui dormir quase ao amanhecer, completamente encantado. Durante meses, não falava de outra coisa. A vida, a arte e a literatura de Schulz me inquietavam e fascinavam.

O que mais me impressiona em Lojas de canela é a maneira como a imaginação transforma a realidade. As ruas, as casas, os objetos, a natureza e até as palavras ganham vida própria. A cidade deixa de ser apenas um lugar concreto e passa a existir também nos caminhos inventados pela memória. Em uma passagem, Schulz escreve: “A imaginação encantada e confundida produz plantas ilusórias da cidade, supostamente há muito conhecidas e sabidas, nas quais as ruas têm seu lugar e seu nome”. Quando reli esse trecho, chorei. Sou um chorão mesmo.

Em 2023, comecei a escrever meu primeiro livro, Quando eu falava com os eucaliptos, publicado em 2024 e lançado na Flip, na Casa da Estante Virtual. Schulz foi uma das minhas referências. Assim como em Lojas de canela, recorri à autoficção para reconstruir a infância, acompanhando o narrador dos seis aos oito anos. Agora, enquanto escrevo meu segundo livro, provisoriamente intitulado O céu é mais azul que meu coração, volto a Schulz em busca de alimento artístico. A nova história acompanha o narrador dos nove aos 30 anos, e nela também procuro dar vida a tudo: à laje da casa, ao carrinho de feira, à bicicleta. Para mim, até as palavras estão vivas.

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Há ainda uma dimensão de mistério nessa literatura que me comove. Schulz parece perceber o sagrado nas pequenas coisas, aquilo que tantas vezes passa despercebido aos nossos olhos. Penso muito nisso diante de um mundo cada vez mais desencantado. Bruno Schulz viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial e foi assassinado por um nazista, em 1942. Hoje, em tempos também marcados por apreensão e incertezas, sua obra me lembra que a imaginação pode ser uma forma de liberdade e resistência. Talvez seja justamente por isso que continuo voltando a Lojas de canela: para não perder a capacidade de me encantar com o mundo.


Maurício Eloy é educador, artista visual, livreiro e escritor, com um romance publicado — Quando eu falava com os eucaliptos (Garoupa Editora, 2024) — e um em construção, O céu é mais azul que meu coração (em breve numa livraria perto de você!). Eloy trabalha diariamente na livraria e sebo Chama de uma vela, em São Paulo.

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Monica Ramalho

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