Futuros Compostos | Livros para ler o mundo: o nascimento da ‘Longevity Fiction’
Como tudo é incrivelmente inédito nessa jornada humana rumo à ampliação da existência, cabe à literatura o papel de ensaiar, pela ficção, vidas e futuros
Estamos diante de um ser humano inédito: o Homo longevus. Brincadeiras à parte, a longevidade – assim como a emergência climática, explorada na coluna anterior, e o avanço da inteligência artificial – está entre as grandes transformações que nos ajudam a traduzir o tempo que vivemos. Em 2025, o mundo registrou 1,22 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais; em 2050, serão aproximadamente 2,11 bilhões. Desde 2020, esse contingente já supera o de crianças menores de cinco anos e, até meados do século, deverá ultrapassar a população entre 15 e 24 anos. Entre os mais longevos, a mudança é ainda mais expressiva: os 80+ devem chegar a 426 milhões em 2050.
É demografia e é economia. Com o viver mais, novas implicações chegam a essa geografia do envelhecimento. Em 2050, cerca de 80% das pessoas idosas viverão em países de baixa e média renda, segundo a Organização Mundial da Saúde. Ao reconfigurar mercados, cidades, relações de trabalho e vínculos entre gerações, a longevidade alcança, também, o território da produção cultural. Em um debate sobre representatividade, produção e acesso, vamos ter que conversar sobre quais vozes prateadas serão ouvidas e quais serão silenciadas nesse processo de adequação a uma nova realidade etária.
No mercado editorial, essa transformação etária transparece na multiplicação de títulos sobre envelhecimento e longevidade, e na forma como narramos quem somos e como vivemos em uma sociedade mais longeva. Na prática, autores e leitores prateados imprimem uma nova dinâmica na produção e consumo de livros, obviamente. Mas, o que mais me instiga são os sinais interessantes sobre como a longevidade atravessa e inspira o nosso mercado.
Um dos exemplos vem das próprias premiações. Criado em 2018 pela Royal Society of Literature, no Reino Unido, o RSL Christopher Bland Prize concede 10 mil libras ao melhor livro de estreia – de ficção ou não ficção –, publicado por um autor com 50 anos ou mais. O nome da premiação é uma homenagem a Christopher Bland, que iniciou a própria trajetória como escritor depois de se aposentar. Em 2026, o vencedor foi Frank Thabani Sayi, com o livro de memórias No safer kinder hatred (Hachette). Ao receber o prêmio, ele “denunciou” algo muito presente no envelhecer: o desejo de ser ouvido ao contar histórias que somente quem vive mais pode contar.

Ainda dentro das iniciativas da Royal Society Literature, destaco o RSL Pioneer Award – criado em 2025 por iniciativa da escritora anglo nigeriana Bernardine Evaristo. Essa premiação nasceu para reconhecer escritoras britânicas com 60 anos ou mais que tenham aberto novos caminhos na literatura e contribuído para tornar possíveis trajetórias que antes encontravam maiores barreiras para as mulheres. Financiado com os recursos recebidos por Bernardine no Outstanding Contribution to Women Award, o prêmio teve como primeira homenageada Maureen Duffy – então com 91 anos, que faleceu em 2026. Autora de mais de 60 obras entre romances, poesia, teatro e não ficção, ela foi pioneira na representação de mulheres, da classe trabalhadora e da população LGBTQIA+.
Na perspectiva de autores e leitores mais longevos, embora ainda não exista uma “Longevity Fiction” reconhecida como gênero literário – nos moldes da Climate Fiction –, a longevidade já começa a produzir novas narrativas e a desafiar antigas representações do envelhecimento. Há sinais de futuro no campo acadêmico: os estudos sobre late-life fiction e gerontologia literária têm investigado como a literatura pode romper com a tradicional associação entre velhice, declínio, dependência e fim da vida, abrindo espaço para experiências mais diversas de identidade, desejo, criação e reinvenção.
Para citar exemplos concretos, a University of Southern Denmark (Dinamarca) mantém dentro do Danish Aging Research Center o projeto “Last Years of Life: Late Life Fiction” – dedicado a analisar como textos literários imaginam os últimos anos da vida e diferentes concepções de bem-estar. Na University of East Anglia (Reino Unido), estudos de Hannah Zeilig aproximam literatura, gerontologia narrativa e gerontologia crítica para investigar como histórias podem questionar e reconfigurar culturalmente as ideias de idade e envelhecimento. Recentemente, a Oxford University Press publicou o Storied complexities of later life: Narrative gerontology comes of age, que reúne a produção de pesquisadores que discutem identidade e longevidade extrema, além de novas formas de narrar histórias na segunda metade da vida. Ou seja, tem como objeto de estudo o envelhecimento biográfico.
Não acredito que seja cedo demais para demandar uma Longevity Fiction diante do Tsunami Prateado que invade o mundo. Com uma vida mais longa, os humanos estão ampliando o repertório de histórias que queremos contar – e dos futuros que podemos imaginar. Ao acrescentar décadas à experiência humana, vemos mais tempo para viver novos amores, recomeços, conflitos, e novas descobertas e transformações passam a caber onde antes enxergávamos apenas o epílogo.
E por falar nesse porvir, acredito que a longevidade seja um terreno fértil para futuros especulativos. O que acontece com as relações, identidades e escolhas quando viver até os mais de 100 anos deixa de ser exceção? O Homo longevus está mudando a demografia e a nossa capacidade de imaginar. Como tudo é incrivelmente inédito nessa jornada humana rumo à ampliação da existência, cabe à literatura o papel de ensaiar, pela ficção, vidas e futuros que teremos que aprender a exercer. Isso nos leva ao próximo tema da série “Livros para ler o mundo”: a inteligência artificial como tema, ferramenta e balizador de novas realidades.
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