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O que estou lendo: Leonardo Marona

24 de setembro de 2026
2 min de leitura
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'Considero Aira um escritor para escritores. Porque, no fundo de suas tramas, há sempre, através do bloqueio, da insegurança e da infantilidade, uma alusão ao ofício da escrita', diz o escritor e livreiro

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Diário da hepatite, de César Aira, publicado em 2025 pela Papéis Selvagens, editora especializada em literatura latino-americana, é a indicação da vez. “Sou muito fã do escritor argentino porque ele se permite uma liberdade pouco usual na escrita, que, segundo ele, é uma ‘fuga para frente’. Assim, a trama se torna secundária em relação ao estilo, abrindo o caminho de suas histórias para um labirinto de pensamentos e reflexões. Neste livro, a doença enfrentada pelo protagonista é também uma doença da literatura em crise. O que torna tudo engraçado, via neurose. Acabei de terminar o livro, que é um tiro curto e certeiro.

O trecho destacado na quarta capa é de tirar o fôlego. E revela bastante sobre os sofrimentos e os delírios da aventura que é escrever, que diz: ‘Se me encontrasse desfeito pela desgraça, destruído, impotente, na última miséria física e mental, ou as duas juntas, por exemplo, isolado e condenado na alta montanha, afundado na neve, em avançado estado de congelamento, após uma queda de centenas de metros batendo em lascas de gelo, com as duas pernas arrancadas, ou as costelas esmagadas e quebradas e todas suas pontas perfurando meus pulmões (…) o mais provável seria que, mesmo tendo uma caneta e um caderno à mão, eu não escreveria.’

Considero Aira um escritor para escritores. Porque, no fundo de suas tramas, há sempre, através do bloqueio, da insegurança e da infantilidade, uma alusão ao ofício da escrita. Então, enquanto escritor diletante que sou (como talvez também se considere Aira), isso ressoa muito fortemente em mim. Recomendo a leitura deste livro pelo fôlego delirante, pela comicidade levada a sério, o desrespeito às convenções, pela graça do grande artesão das palavras. Em suma, pelo jogo, a luta franca”.


Leonardo Marona é livreiro com larga experiência e, inclusive, procura emprego neste momento. É autor de uma porção de livros de poesia, contos, romances e uma novela: Pequenas biografias não-autorizadas (7Letras, 2009); L’amore no (7Letras, 2011); Conversa com leões (Oito e Meio, 2012); Óleo das horas dormidas (Oficina Raquel, 2014); Cossacos gentis (Oito e Meio, 2015); Herói de Atari (Garupa, 2017); Dr. Krauss (Oito e Meio, 2017); Uma baronesa às quatro da madrugada (Urutau, 2018); Baby Buda (Corsário Satã, 2021); Comunista FDP (Garupa, 2021); e O bom massacre (Telaranha, 2025).

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Monica Ramalho

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