Milton Hatoum: “O Brasil vive um eterno romance de desilusão”
O escritor se prepara para lançar o primeiro volume de uma trilogia que fala sobre a ditadura militar
Brasília surgiu no meio do cerrado como uma utopia, o símbolo de um país que se avizinhava novo e integrava seu próprio território. Em pouco, transformou-se em distopia. Sob a ditadura militar e seus atos institucionais, as avenidas largas, as quadras planejadas, os espaços rarefeitos de edifícios e gentes, o vazio de uma cidade erigida do zero se aliou ao vazio existencial e político do Brasil. O que resultou disso foi uma sensação de obra inconclusa, de alienação. É esse o cenário de A noite da espera, o primeiro volume da trilogia O lugar mais sombrio, que o escritor Milton Hatoum lança no dia 27 de outubro pela editora Companhia das Letras. Em A Noite da Espera, Hatoum conta a história de Martim, um adolescente paulistano que muda-se para Brasília com o pai, que acaba de atravessar uma separação traumática e misteriosa com sua mãe no fim dos anos 1960. Já em Paris, dez anos depois, o protagonista revisita aqueles anos tentando reconstruir, a partir de memórias, reminiscências e cartas, os anos turbulentos que passou na capital. Assim, a narrativa não é construída por um discurso linear em terceira pessoa, mas conduzida por fragmentos de textos repletos de vazios, interrupções e reflexões. A escolha formal do escritor conversa com a cidade e com o próprio Martim, que se ressente da ausência da mãe, não compreende o momento político do país e descobre um mundo novo a partir do contato com um grupo de amigos aspirantes a artistas e intelectuais. E esse é um do principais méritos deste primeiro volume da trilogia A noite da espera – que Hatoum lança nove anos depois da publicação de seu último romance, Órfãos do Eldorado –, recriar a sensação de isolamento, algo absurdo, que se tinha na Brasília sob a ditadura.
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