Lira Neto vai ao início do século 20 para biografar o samba em ‘Uma história do samba’
A gênese do gênero é tema do primeiro livro de uma trilogia escrita pelo jornalista
Eles eram muitos Ismaéis, Sinhôs, Cartolas, Ciatas, Dongas,
Pixinguinhas e Noéis. Viviam por dias pestilentos e noites venéreas de um Rio
de Janeiro em transformação, descendentes próximos de escravos driblando
meganhas que os prendiam por vadiagem e porte de violão enquanto tentavam criar
para suas existências um papel que nunca esteve no script. Eram pedreiros,
carteiros, pintores, larápios, batedores de carteira e cafetões prontos a se
esquivarem da navalha de um marido traído ou a sacarem do bolso caneta e papel
que, um dia, os salvariam da invisibilidade. Eles eram sambistas. O samba não
tem criador nem nasceu por decreto. Não há pedra em residência que o batize nem
pai que o reconheça em cartório. Veio por ventos soprados da África em linha
reta ou rebatidos dos recôncavos baianos, entrelaçados sobre o Rio e respirados
por uma gente que acabava de atingir tal condição. Antes mesmo que o samba
fosse samba, já era assim. Criado no ambiente pós-Abolição de 1888 e
pré-modernização da Capital, fazendo a única ponte possível entre a miséria dos
barracos que começavam a ser empilhados, a classe média e as elites que ouviam
a Rádio Nacional de Francisco Alves e Mário Reis, o samba, paradoxalmente ao
cenário indigesto de suas origens, não poderia surgir em momento melhor. “Era a
música certa no lugar certo”, diz o jornalista e pesquisador Lira Neto. A saga
que ele conta está nas linhas e nas entrelinhas de Uma história do samba – As origens (Companhia das Letras, 368
págs., R$ 64,90), o primeiro livro de uma trilogia, lançado agora pela
Companhia das Letras, que dimensiona o gênero ao contar histórias de seus
principais personagens e, com elas, provocar a leitura paralela de uma era.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta

