Alucinações no âmago da aldeia
Dois novos títulos de Herta Müller, Nobel de 2009, publicados no País revisitam sua herança de paradoxos
É bem conhecido o dito tolstoiano de que, para tornar-se universal, o escritor deve começar sempre por pintar sua própria aldeia. Seguir esse dito em nosso tempo é difícil: as aldeias sendo cada vez mais escassas, escritores aldeões já são quase inencontráveis. Herta Müller é a exceção notável que confirma ambas regras acima: nascida no Banato romeno, onde a repressão política de Nicolae Ceaucescu combinava-se com as tiranias costumeiras em todos povoados para mantê-la bem longe das grandes cidades e da liberdade, ela é a aldeã que nunca acaba de pintar sua aldeia. […] Seus contos e romances formam uma épica em fragmentos de um mundo que é a sombra cada vez mais distante das promessas daquele monarca, que via a germanização do Leste Europeu como um gesto de benevolência, um favor à civilização. […] Lidar com tal herança de paradoxos é matéria para uma vida inteira, motivo a mais para a autora voltar sempre à sua aldeia, em livros como Depressões, O Compromisso e Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio (Globo) bem como Tudo o Que Tenho Levo Comigo (Companhia das Letras). A esses títulos somam-se, agora, traduções do romance Fera d’Alma (título provisório), de 1994, e da novela O Homem É Um Grande Faisão no Mundo, de 1986, que saem, respectivamente, por aquelas mesmas editoras. Neles, a aldeia é também ponto de partida para uma poética que, ao sublimar o encadeamento de vivências sem sentido, determinadas pelas alucinações da política e das diferentes instâncias das tiranias, encaminhará o leitor pelos corredores de uma linguagem saturada de magia, uma catedral exuberante de nexos barrocos.
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