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Voltar MERCADO EDITORIAL

O livro e a alma

10 de novembro de 2010
7 min de leitura
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Fernando Alves conta como foi sua visita à mais bela livraria do mundo

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Foi só quando descarreguei as fotos em meu laptop, aí pelas duas da madrugada friazinha de Frankfurt, que me dei conta da razão que me levara a fotografar a vela acesa sobre a estante de doces do café da rede Coffee Lovers, instalado dentro da livraria: a chama brilhava onde outrora fora o altar da antiga igreja dominicana de Maastricht. Não havia dúvida: o que se acendeu foi uma epifania – a revelação de que a igreja não fora transformada em uma livraria, mas as duas instituições se fundiram…

Maastricht é cortada pelo rio que lhe dá o nome (Maas), capital do distrito de Limburgo, uma espécie de apêndice no mapa da Holanda. Chegamos a ela (Ricardo Costa e eu) vindos de Colônia, por excelentes auto-estradas bem sinalizadas e sem buracos. Estacionamos perto do centro histórico, botamos moedinhas no parquímetro e lá fomos conhecer a estrela da rede de livrarias Selexiz, presente em toda a Holanda: a loja da Dominikanerkerk (igreja dominicana, literalmente).

Para entrar na igreja-livraria, atravessa-se uma porta de ferro de seis toneladas, com a proposital marca da ferrugem a conferir-lhe um tom alaranjado tão singular quanto harmônico, se tomada em conjunto com o cinza da pedra das paredes. Nessa porta, entrelaçadas, inscrições em 27 diferentes línguas da palavra livro. Em português, inclusive.

A direção da Selexiz procurava um espaço condizente com a força de sua rede para a abertura de uma livraria no centro revitalizado da cidade e a igreja caiu-lhes como uma luva. Estivera descartada por conta de já estar destinada a ser parte de um enorme shopping center, cujo projeto (felizmente) foi abandonado. (Entre esse momento e a chegada da livraria, o destino do prédio foi ser um biciletário…)

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Entre a autorização para a abertura da livraria e sua efetiva acolhida dos primeiros visitantes passaram-se cinco anos, investidos sobretudo na porção administrativa da livraria e em seu excelente sistema de localização de obras.

A livraria, para deleite de seus habitués, abre sete dias por semana praticamente o ano inteiro; ao todo fecha apenas 10 dias por ano, por ocasião do Natal, da Páscoa e do Carnaval… Falemos da história do prédio (a menção ao Carnaval me instiga a fazê-lo!)

Ao tempo em que foi construída a igreja, três importantes congregações estavam presentes em Maastricht, dentre elas os dominicanos, a quem pertencia. Uma rica família local doou um grande terreno aos monges e na porção mais elevada dessa terra eles fizeram erguer a igreja, começando no ano 1266. Um templo para os monges apenas, o que explica a ausência de uma torre, cuja função seria facilitar sua localização pelos fiéis.

Internamente, as porções pintadas das paredes e das abóbadas denunciam a passagem do tempo e o eterno ciclo das escolas artísticas. Sabe-se que há três camadas de pinturas ali, sendo a mais “recente” a barroca, dos anos 1500… isto é, entre a construção do templo e a última pintura, passaram-se aproximadamente 300 anos. E essa peculiaridade faz dela uma raridade: a única igreja gótica do mundo que encerra em si afrescos barrocos!

Ao tempo da Revolução Francesa, pouco depois, Maastricht tornou-se uma cidade francesa e passou a seguir sua legislação, que impedia que estabelecimentos religiosos existissem dentro das cidades, mas somente fora dela. A desapropriação abateu-se sobre todas as congregações e aos dominicanos não sobrou alternativa senão entregar a igreja ao governo francês. Que a transformou em estábulo para os cavalos de suas tropas…

Depois disso, já no século XIX, os prédios religiosos da Holanda passaram às mãos do governo, com exceção desta igreja, que passou a ser propriedade da municipalidade de Maastricht. E foi alugada ou serviu para uma vasta gama de atividades. Como arquivo público. Como igreja mesmo, enquanto outras igrejas estavam fechadas por alguma razão. Como pronto-socorro durante a Primeira Guerra Mundial (lembrando: a Holanda era um país neutro). Como sala de concertos. Como necrotério durante a Segunda Guerra Mundial, quando um bombardeio matou 110 cidadãos cujos corpos foram aí identificados. Como ringue de boxe, logo depois da guerra. Como quadra de andebol. E como salão de bailes do “grandioso” Carnaval de Maastricht (pronto, cheguei onde queria: o Carnaval; quero revisitar a cidade e conferir essa festa).

Esta última festividade é particularmente cara à história do prédio que abriga hoje a livraria porque muitos bailes de carnaval, equivalentes às matinés brasileiras para crianças, eram ali realizados. Muitos adolescentes deram seu primeiro beijo atrás de algumas das colunatas da igreja. Divertido, o gerente da livraria Ton Harmes conta ser comum ver casais saudosistas em busca de um canto especial da livraria! (A propósito, obrigado pela entrevista, Ton! Esperamos que você publique seu livro!)

Ton, aliás, afirma ser comum ouvir pessoas dizendo umas às outras dentro da livraria: “Ah! Você se lembra disso?” Não eram poucos os eventos. Nos anos 1950, em pleno pós-guerra, exposições de automóveis norte-americanos aconteciam exatamente ali. Fileiras de Cadillacs no lugar de fileiras de bancos e genuflexórios. E havia festas… Sim, havia festas na igreja. No auge do movimento Flower Power dos anos 1960, festas de arromba aconteciam entre aquelas paredes e colunas de pedra. Em outra oportunidade ainda, um artista plástico queria destacar as linhas do prédio. E não hesitou em inundar a igreja, de modo a formar um espelho gigantesco que refletisse as celestiais abóbadas…

O desafio de montar e manter a igreja é constante perante as exigências do da Comissão de Patrimônio Histórico da Holanda, cuja orientação é restaurar apenas no sentido de não acrescentar nada nem alterar nada sem sua expressa autorização, negada no mais das vezes. Literalmente, não se pode botar um parafuso na parede sem a referida autorização. Não se entenda por isso que a comissão é refratária ao bom uso do imóvel: foi rápida a liberação de sua autorização para que se instalasse ali a livraria.

Tudo isso nos contou Ton Harmes, como eu já escrevi. Andando pelas instalações da livraria, todavia, aqui e ali reflexões emergiam (e houve tempo pra isso, já que ficamos perto de cinco horas ali, em estado de graça).

No andar térreo, topo com um totem da Samsung, que exibe um e-reader, recentemente lançado. Todo branco e com pouco mais de um metro de altura, o display se integra ao cenário com naturalidade. Sob a abóbada da catedral, o conhecimento, não importa em que suporte esteja, acomoda-se muito bem.

A vela acesa. Há mais de 20 anos, quando visitei a Alemanha pela primeira vez, precisamente naquele histórico mês de novembro de 1989 em que o Muro de Berlim se desmanchava, minha querida Doris Meertz, “mãe alemã” que me hospedou no intercâmbio, ensinou-me que a vela acesa (que me intrigava em todas as refeições em sua casa) é para nos lembrar de que nunca estamos sozinhos. Seja com Deus, seja com os livros.

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