O livro não é uma página virada
“O real problema de hoje é a rapidez com que uma técnica substitui a outra”, diz o roteirista
Considerado o sustentáculo maior da cultura, o livro não está livre dos riscos trazidos pelas novas tecnologias ou novas tendências. Em festivais literários e salões que reúnem editores, autores, críticos, leitores e curiosos, o lugar do livro nas sociedades atuais tem sido matéria de amplas discussões, muitas vezes calorosas e poucas vezes conclusivas. Foi justamente para discutir o futuro do livro que o celebrado roteirista e escritor Jean-Claude Carrière recebeu a reportagem do Valor em sua casa, em Paris. Recentemente, ele conversou sobre o futuro do livro e da cultura com o amigo Umberto Eco. O resultado dessas conversas é o recém-lançado Não contem com o fim do livro (Record), organizado por Jean-Philippe de Tonnac (Record). “Saber se o livro vai continuar a existir é questão banal que se responde em três páginas. Mas quisemos definir o livro, saber o que é e o que contém. Além disso, falamos de memória, da transmissão de uma geração a outra. E descobrimos coisas um sobre o outro, gostos, segredos, hábitos, costumes e até perversões”, conta Carrière. Ele comenta o sério problema do armazenamento, da memória. “Acompanhei de perto: há 50 anos as bibliotecas tentam guardar os livros, porque os atuais certamente não poderemos ler daqui a 200 anos. O real problema de hoje é a rapidez com que uma técnica substitui a outra.” O e-book, que, para ele, lamentavelmente, com sua única forma de leitura, é monótono, ainda tem o inconveniente de durar pouco: “É possível pegar um livro do século XV, mas não poderemos ler um e-book que tenha 15 anos. A técnica de hoje é muito efêmera”. (*Mônica Cristina Corrêa é tradutora, doutora em língua e literatura francesa pela USP, tem pós-doutorado em literatura comparada e teoria literária)
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