Guardião das letras
José Mindlin está inconformado. Aos 94 anos, perdeu dois hábitos que são as maiores paixões de sua vida: ler e garimpar livros. A visão avariada deixou o bibliófilo de mãos abanando. Antes, ele sentava na poltrona marrom de sua casa, no Campo Belo, e lia, em média, oito livros por mês. Hoje, gasta duas horas diárias escutando a leitura das filhas ou das netas. No momento, ele degusta a audição do quarto volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Ao longo da vida, leu quatro vezes a obra, sempre no original, em francês. A primeira vez, foi aos vinte e poucos anos. “Não enxergar tão bem é uma dessas injustiças da sorte”, diz. O irônico é que ao redor de Mindlin fica a maior biblioteca privada do país. Desde os 13 anos, ele se acostumou a perseguir livros pelo mundo. O resultado é uma coleção preciosa de 50 mil títulos, apinhada de raridades, dos quais leu 6.000. Desde sua primeira aquisição, encontrada num sebo de São Paulo – o Discurso sobre a história universal, de 1740 -, até curiosidades como um livro de Graciliano Ramos, cujo título foi rabiscado pelo autor. Tal busca por raridades é diagnosticada por Mindlin como uma “loucura mansa”, de dimensão patológica. “O coração bate forte quando tenho em mãos uma primeira edição.”
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta


