Leitura na ponta dos dedos
Leitura na ponta dos dedos
Rita de Cássia Martins de Araújo, de 27 anos, passa os dias lendo com a ponta dos dedos livros que têm como destino levar a outros deficientes visuais, como ela, histórias que emocionaram muitas pessoas, como a da adoção de um cão labrador por um jovem casal nos Estados Unidos, que conquistou milhares de fãs. Foi no ano passado, em São Paulo, que a saga narrada pelo americano John Grogan em Marley & Eu pode ser apreciada por quem não pode enxergar. Isso graças ao trabalho da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que produz em Braile livros que serão distribuídos gratuitamente para mais de 1,7 mil bibliotecas, escolas e organizações de todo o Brasil. Rita trabalha na instituição, e sua função é revisar as obras. “É muito gratificante saber que outras pessoas vão poder ler esses livros que passam pela minha mão”, conta. Antes de serem impressos, os livros são submetidos a duas revisões, realizadas por profissionais cegos, acompanhados por voluntários com visão normal. Ali são fabricados, todos os dias, os livros didáticos, paradidáticos, bestsellers e literários para alunos cegos de todo o País.
Rita chega a revisar, em um único dia, cerca de 200 páginas. Ao todo, dez pessoas fazem o mesmo trabalho na instituição criada há 62 anos pela paulistana Dorina de Gouvêa Nowill e um grupo de amigas. Além do Braille, a fundação produz obras em áudio e livros acadêmicos e de referência, no formato Livro Digital Acessível (Lida), que consiste em uma ferramenta de leitura digital em CD-ROM. O sistema permite à pessoa cega ou com visão subnormal acesso a obras destinadas ao estudo e à pesquisa. Esse sistema de leitura também já está sendo desenvolvido pela instituição no formato Daisy, uma evolução do Lida compatível com os protocolos internacionais de acessibilidade. O novo formato possibilita que um ou mais arquivos de áudio, gravados em voz humana ou sintetizada, sejam reproduzidos por meio de um aplicativo específico de leitura instalado no computador ou por equipamentos especiais importados, semelhantes a aparelhos de som com CD.
De acordo com o gerente editorial da Fundação, Roberto Gallo, a Dorina Nowill é a imprensa Braille com a maior produção da América Latina e uma das maiores do mundo em termos de capacidade produtiva. No final de outubro, cerca de 15 especialistas de países participaram de um encontro latino-americano de livros digitais acessíveis, sediado pela fundação. O objetivo é formar um consórcio com os países da região para a produção de livros digitais no formato Daisy. “É um passo enorme que a fundação está dando na questão do livro digital acessível”, afirma o gerente editorial. Roberto Gallo também chama a atenção para o aumento no número de livros adaptados. Em 2005, 127 títulos foram produzidos na Dorina Nowill. Este ano, serão 1065 nos formatos Braille, áudio e digital. “Em três anos, aumentamos oito vezes nossa produção”, diz. A fundação ainda conta com uma biblioteca circulante com mais de 900 títulos disponíveis nos formatos MP3 e digital. Coisa de quem realmente acredita no livro e na leitura como caminho para a inclusão social e trabalha, diariamente, para ampliar essa oportunidade a milhares de deficientes visuais de todo o Brasil.
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