País grotesco de um autor desiludido
O mais recente romance de Marcelo Mirisola corre o risco de parar nas estantes de ecologia politicamente correta. O título Animais em extinção (Record, 176 pp., R$ 32), pode levar a confusões classificatórias. No entanto, basta olhar a capa com atenção e ler as primeiras linhas para o leitor perceber que, nessa ficção, o narrador gostaria de esfolar o primeiro mico leão-dourado que lhe aparecesse pela frente. Os humanos-animais de Mirisola procuram se desamarrar dos “paradoxos e da hipocrisia social”. Uma alternativa apresentada no livro é, a princípio, chocante: a pedofilia. Ela reflete a necessidade que o autor tem de forçar os limites do coletivamente tolerável. Salva-o da condenação moral um ponto de vista que metaforiza frases e parágrafos de forma a dar um nó de irrealidade na cabeça do leitor. A situação principal se repete nas narrativas do autor. Temos o mesmo narrador-escritor “desistido” de si e, principalmente, dos outros. Como um Holden Caulfield mais velho, mais literário e bem mais sexual, ele atira contra tudo e contra todos que vivem numa sociedade entulhada de falsidades. A menina-prostituta Vanusa, vítima da pedofilia surreal de um escriba derrotado, faz parte da tragédia cultural brasileira anunciada sob sol de verão tropical, tendo ao fundo o som de Ivete Sangalo e cia.
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