Os intestinos da Camorra
Gomorra (Mondadori, 334 pp., 15,50 euros), de Roberto Saviano, que será lançado aqui pela editora Bertrand Brasil – começa com a descrição de uma avalanche de corpos que se precipitam de um contêiner alçado sobre o porto de Nápoles: esses troncos parecendo manequins, com etiquetas de identificação amarradas ao pescoço, são cadáveres de imigrantes chineses que pagaram para, uma vez mortos, serem levados de volta ao país natal. À primeira vista, a cena tem pouca relação com o tema central da obra – o império econômico da Camorra (a máfia napolitana). Mas a redução do corpo à mercadoria clandestina é um intróito perfeito para esse livro-reportagem que foi adaptado pelo diretor Matteo Garrone (o filme homônimo exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) e obrigou Saviano a sair de Nápoles sob ameaças dos chefões do crime. Os chineses de Nápoles são parte da indústria de contrafação e tráfico de drogas montada pelos camorristas. Captar esse mecanismo, assimilando-o à estrutura romanesca, é uma das virtudes de Gomorra.
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