Kadaré tira poesia das pedras
Poético, melancólico, mas com toques bem-humorados, e francamente autobiográfico é este romance do escritor albanês Ismail Kadaré, Crônica na pedra (Companhia das Letras, 280 pp., R$ 44 – Trad.: Bernardo Joffily). Publicado pela primeira vez em 1970, ele agora ganha tradução caprichada, diretamente do albanês, de Bernardo Joffily. A entrada da Albânia na modernidade coincide aqui com a pré-adolescência do narrador, um menino fantasioso e inteligente, que, durante a Segunda Guerra Mundial, vê suceder várias vezes a ocupação de sua cidade natal, Gjirokastra – não por acaso a mesma de Kadaré -, pelos fascistas italianos, depois pelos gregos e, finalmente, pelos nazistas. Resistente como a pedra usada na construção das casas e no calçamento, presa a antigas tradições e superstições, que reluta em abandonar, fechada sobre si mesma, a população é obrigada a entrar em contato com novidades – como os aviões – e a sair da vidinha provinciana quando começam os bombardeios. O leitor é situado nos fatos reais que cercam a vida do garoto por meio de pequenas “crônicas” – recortes de notícias do jornal municipal da época e também das anotações de uma misteriosa velha.
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