Esboço da alma humana
A coisa mais feia deste mundo é a realidade. Se um escritor deseja retratá-la com justiça, é preciso dominar uma forma literária que a copie – não é permitido dispensar a feiúra. Esse poderia ser o manual do escritor ensinado por Fiódor Dostoiévski (1821- 1881). Seu estilo era duro, porque ele via cruamente a aspereza do universo à sua volta. Até hoje depreciado como um autor de formas literárias rudes, Dostoiévski padeceu com as traduções indiretas feitas do inglês e do francês para o português. A história começou a mudar em 2000, com Memórias do subsolo, traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman. O ápice desse processo é a tradução de Os irmãos Karamázov por Paulo Bezerra. Sob a chancela da Editora 34 e considerado a síntese das criações de Dostoiésvki, esse romance chega às livrarias em 5 de novembro, dentro de uma caixa com dois volumes, com 1.040 páginas e a R$ 98. Esta é a primeira edição efetivamente integral em língua portuguesa. Última obra de Dostoévski, escrita um ano antes de sua morte, em 1881, o romance é um esboço profético do século 20 e do começo do 21, quando o capitalismo mostrou suas faces mais selvagens.
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