Kertész vê o mal universal em contos
“O mal é o princípio da vida”: em uma entrevista, o escritor húngaro Imre Kertész disse ser esta a frase “mais ácida e mais lúcida” que ele escreveu. Não há, portanto, batalha a disputar – a humanidade já perdeu -, o que resta é descobrir o que fazer a partir daí, uma vez que continuamos todos (muitos) a existir. Não é por acaso que em A bandeira inglesa (Planeta, 248 pp., R$ 37 – Trad.: Claudia Abeling) as palavras “realidade” ou “vida” venham invariavelmente acompanhadas do termo “catástrofe” ou que o narrador obsessivo do conto que dá nome ao livro diga, a certa altura, que neste “mundo assassino” são todos (somos todos) “assassinos”. A frase ecoa no texto seguinte, “O buscador de pistas”, na reflexão do visitante: “Do que então se nutriria nosso medo constante, se todos não nos sentíssemos um tanto partícipes do mal universal”. Se o ponto de partida existencial é esse, o ponto de partida estético precisa, de algum jeito, acompanhá-lo. Isso acontece por meio de uma série de recursos de estilo que tornam o texto quase opaco, como se pudéssemos segui-lo só até determinado ponto: a partir dali, tudo é dolorido demais, incompreensível demais.
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