O mau cheiro do passado continua
Um novo volume da sempre estimulante coleção Sabor literário (a da cerejinha como logomarca) acaba de chegar às livrarias: Mulheres viajantes no Brasil (1764-1820), (José Olympio, 98 pp., R$ 20)com tradução e minucioso estudo introdutório do historiador Jean Marcel Carvalho França. Antologia de textos a reunir o melhor que três mulheres – as inglesas Jemima Kindersley e Elizabeth Macquarie, além da francesa Rose Freycinet – anotaram sobre a terra brasilis, em priscas eras, ali onde a viagem tinha um sentido e um sabor bem diversos do travel tourism de nossos insossos dias. Os livros de viagem ao Brasil, muito embora o invariável registro de nosso perene exotismo, guardam grandes diferenças entre si. De Hans Staden a Lévi-Strauss, o Brasil é sempre outro – e não só porque as épocas diferem -, mas sobretudo em razão de que a “leitura” do viajante, sabemos, é diversa em si. Este Mulheres viajantes no Brasil é o maior exemplo: sob a ótica de três mulheres, três estrangeiras, três representantes de um sexo historicamente submetido à servidão, num tempo “repressivo” por excelência, o Brasil de cada uma delas não é, em hipótese alguma, o mesmo Brasil.
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