Monteiro Lobato, a morada da infância
Durante muitos anos minha infância de filha única órfã de pai tinha como morada predileta o Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Era ali onde minha imaginação se experimentava mais desafiada e minha vida de menina que se sentia desprotegida e convidada a encontrar outros mundos que lhe dessem mais segurança e prazer vivia mergulhada por horas e horas, lendo e relendo as maravilhosas histórias do universo infantil lobatiano. Lendo Lobato, identificava-me com Narizinho, que era ora uma amiga, ora uma irmã, ora uma companheira de travessuras, ora eu mesma travestida e transfigurada naquela personagem de menina mais adulta e perguntadeira do que ousava eu ser na vida real. Por Emília apaixonava-me sempre mais: sua inteligência, sua astúcia, seu espírito lúcido e crítico, sua rebeldia, personificavam uma “outra eu” que dormia envergonhada e ainda tímida dentro de mim mesma. Porém, no fundo, a transgressora Emília era onde me percebia com mais verdade.
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