Uma estranheza plácida
A correlação entre Modesto Carone e Franz Kafka é tentadora – e quase inevitável. Primeiro, porque se trata do principal tradutor brasileiro do autor de clássicos como O processo e A metamorfose. Se não bastasse, os 49 contos reunidos em Por trás dos vidros (Companhia das Letras, 208 pp., R$ 38), seu novo livro, caracterizamse pelo registro realista e pelo matiz insólito que sempre foram caros ao escritor tcheco. Engana-se, no entanto, quem pensa em pastiche. Além de apresentar um estilo próprio – e mesmo singular dentro de nosso atual panorama literário -, Carone abdica de perscrutar sentidos no absurdo. A angústia da pergunta nunca respondida, que atormenta os personagens kafkianos, dá lugar a uma melancólica e passiva adaptação ao estado das coisas.
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