Gilberto Freyre: diário ou agenda?
Editado pela primeira vez em 1975, Tempo Morto, agora relançado pela Global Editora (378 pp., R$ 55) é, não obstante, um exemplo em tudo diverso ao que seu autor anuncia. Em primeiro lugar, longe de ser um diário infantil ou ingênuo, o livro foi evidentemente escrito e reescrito como uma autobiografia disfarçada. Tanto que nele reconhecemos algumas “pistas” cuidadosamente deixadas por Freyre, que viria a ser, a partir da década de quarenta, um famoso intérprete do Brasil. Nas páginas do diário vemos como, já na infância, o autor manifestaria interesse pelo popular. Por outro lado, ainda na juventude selecionaria a figura emblemática de Franz Boas como seu mentor intelectual, assim como declararia sua vocação prematura para a antropologia. Tudo parece premeditado, como uma história que se sabe de antemão o final. O diário também não é exatamente um diário. Afinal, Gilberto Freyre sempre foi um autor de si próprio, um animador da sua própria figura. A cada nova edição de seus livros e a cada crítica que recebia, o autor se esmerava em responder a tudo e a todos. É por isso que soa estranho Freyre conservar esse “documento íntimo” de sua pessoa tão pública.
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