A coerência em aparente desalinho
Nos anos 60, quando pela primeira vez senti a peculiar estranheza das narrativas de Felisberto Hernández, o acaso me reforçou a surpresa da descoberta. Debaixo de um monte de volumes imprestáveis, que um carroceiro acabava de despejar na porta do sebo, jazia um exemplar velhinho, mas impecável, de El caballo perdido, quase desconhecido naquela época. Ler El Caballo Perdido, achado em boa hora, significou, por isso, ir tomando conhecimento aos poucos de um segredo, partilhado na intimidade de uma rara invenção. O método de composição adotado por Felisberto, através de detalhes deslizantes para operar vastas mudanças, demonstra uma forma cuidadosamente consciente, mas delicada e quase infantil de aproximação ao desconhecido, ao núcleo poético de suas narrativas. Esta semana – muitos anos depois do meu primeiro encontro com Felisberto – a Cosac Naify lança O cavalo perdido e outras histórias (227 pp., R$ 45), com meu posfácio.
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