Retrato do artista quando refém do próprio neto
Stephen Joyce é neto do homem e o único sobrevivente direto vivo de James Joyce. A missão a que Stephen se atribuiu é a de impedir que os vagabundos de toda parte continuem usando o nome de vovô em vão. E, por vagabundos, ele entende os biógrafos, ensaístas, críticos, historiadores, professores e todos que se propõem a estudar a obra de James Joyce. Isso inclui também os bebuns que, todo dia 16 de junho, recitam trechos de Ulisses nos pés-sujos irlandeses por todo o planeta e que, com essa prática, segundo ele, infringem os seus direitos autorais. O homem é louco. Stephen Joyce tem 74 anos, belos olhos azuis (puxou ao avô) e uma disposição canina para lutar pelo que considera seus direitos. Há cerca de 20 anos é o titular do espólio de James Joyce, que inclui toda a obra publicada do escritor. Qualquer pessoa que se proponha a estudar a obra de Joyce, ou a biografá-lo (a ele ou a qualquer um de seus parentes), e que julgue necessário transcrever um trecho mais extenso escrito por Joyce, precisa da permissão do espólio para fazer essa transcrição. Tal procedimento é corriqueiro (aplica-se a qualquer escritor), e os responsáveis pelos espólios costumam ser lenientes. Eles sabem que nenhuma publicação de alcance acadêmico é capaz de disputar nas livrarias com a obra do parente ilustre. Daí são liberais nessas autorizações. Menos Stephen Joyce. Qualquer solicitação nesse sentido que chegue à sua mesa é respondida com um rotundo ‘NÃO’, sem que ele se interesse em saber de quem ou para quê.
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