Contrastes de timbres poéticos
A leitura de Concerto a Quatro Vozes, coletânea de quatro poetas brasileiros contemporâneos que acaba de sair pela Record, faz ecoar uma célebre – e aguda – declaração do pintor americano Edward Hopper. “Nada me influenciou realmente”, ele confessou certa vez. “Cada artista tem um âmago de total originalidade. Uma identidade totalmente própria.” Com seus movimentos, manifestos e performances, a arte do século 20 tratou de banir, em nome de princípios e de dogmas, o apego à singularidade. Os artistas passaram a se ver como adeptos de bandos. Tal desprezo pelo particular teve, na poesia brasileira, um efeito devastador, que ainda hoje se sente. A poesia guarda, sempre, um núcleo, um olhar único, uma perspectiva que ninguém mais tem, ou pode ter igual. O contraste entre os timbres reunidos no livro (de Adriano Espínola, Antonio Cícero, Marco Lucchesi e Salgado Maranhão, sob a organização de Domício Proença Filho) ajuda a realçar esta importância. Porque é na diferença, e não na repetição, ou no adestramento, ou na descendência, que um poeta se faz poeta.
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