Le Goff faz bom roteiro para estudo sobre o corpo na Idade Média
Não fosse uma doença, talvez Marcel Mauss não tivesse escrito As Técnicas do Corpo (1935), um de seus ensaios mais notáveis. Conta o antropólogo que, estando internado num hospital de Nova York, percebeu no andar das enfermeiras algo familiar. Como tinha tempo de sobra para refletir, deu tratos à bola e fez a descoberta capital: era no cinema que as moças andavam daquele jeito. Mais tarde, reconheceu a mesma forma de caminhar nas modernas jovens parisienses, fãs de filmes americanos. Daí em diante, foi questão de afiar o olhar para criar um campo de pesquisa que se tornou referência nas ciências humanas do século 20. O corpo está sujeito às dinâmicas da história: com esse ponto de partida, o ensaio seminal de Mauss marcou em particular os historiadores, cada vez mais interessados no tema. Entre eles, deve-se acrescentar o nome do medievalista Jacques Le Goff, que assina agora Uma História do Corpo na Idade Média (Record, 208 pp. R$ 33,90), em que rende tributo à antropologia histórica do mestre francês. Diferentemente de Mauss, porém, o livro de Le Goff parece ser fruto menos de uma demanda intelectual surgida ao acaso e mais de uma estratégia do mercado editorial. Escrito em parceria com o jornalista Nicolas Truong, o trabalho se insere na recente voga de publicações que divulgam temas históricos em linguagem acessível ao público, com sucesso também entre nós.
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