Revendo Champollion e Maria Antonieta
Quando personagens da história morrem, começa uma outra batalha por aquilo que vai ou não sobreviver na posteridade. O que sobreviverá depende sempre de uma luta renhida por heranças materiais e imateriais, dos caprichos e das contingências do tempo e, afinal, desta autêntica loteria que é a memória coletiva. Jean-François Champollion tinha apenas 20 anos em 1811, quando Agathe-Sidonie Laborde, exilada em Viena e presenciando a invasão da cidade pelas tropas napoleônicas, resolveu relembrar os últimos dias que passou junto à rainha Maria Antonieta, no trágico ano de 1789. Agathe provavelmente nunca existiu – pelo menos com esse nome – Champollion levou uma vida atribulada – e os dois personagens nunca se conheceram, mas o relato de suas vidas proporciona novos olhares sobre uma época que foi uma autêntica encruzilhada da modernidade. Os dois personagens são revisitados em dois lançamentos recentes: Adeus à Rainha (A Girafa, 216 pp., R$ 39), de Chantal Thomas, e O Lingüista e o Imperador (Ediouro, 192 pp., R$ 39,90), de Daniel Myerson. A pergunta final é, por que, utilizando tamanha documentação e dispondo de rigorosos critérios heurísticos, Chantal Thomas e Daniel Myerson optaram por produzir relatos ficcionais? Talvez porque seguiram fielmente a sugestão do divertido Arthur Helps, em 1969: “Se você pretende compreender uma época, leia as obras de ficção nela produzidas. As pessoas quanto estão vestidas em fantasias falam sem travas na língua.”
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