Ferreira Gullar ilumina sua poesia
Quando indagado na rua por leitores e fãs se ele é mesmo o poeta Ferreira Gullar, o homem magro, de pele vincada e óculos de grau, cabeleiras brancas e vastas divididas ao meio como de um índio de western americano, responde: “Às vezes”. Pois anteontem (21) à tarde, por duas horas, durante a décima e última Sabatina Folha deste ano, o poeta, escritor e colunista maranhense José Ribamar Ferreira, 75, estava mais Ferreira Gullar do que nunca. Irreverente, disposto, “pirado”, para usar uma palavra cara à sua fala, Gullar falou de vanguarda (“Ainda estão me devendo”), rememorou sua aproximação e seu rompimento com o concretismo (“Eu não queria saber de movimento nenhum”) nos anos 50, sua militância política nos anos 60 e o exílio na década posterior, criticou o governo Lula (“Uma empulhação”) e a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura (“Houve centralização”) e defendeu o comunismo (“Estava relendo o Manifesto Comunista, que termina com sete reivindicações, e verifiquei que todas foram atendidas”). Frasista, exortou que se tentasse “a maravilha, porque a vida não basta”. Sincero, revelou pensar sempre a seu favor. Foi aplaudido pelo público, que ficou até o final, à luz de placas de saída de emergência e da fala de Gullar, que chegou a declamar um poema inédito, “O Duplo”, reproduzido aqui: “Foi-se formando/ a meu lado/ um outro/ que é mais Gullar do que eu/ que se apossou do que vi/ do que fiz/ do que era meu/ e pelo país flutua/ livre da morte/ e do morto (…) mas sem o peso/ do corpo/ que sou eu/ culpado e pouco”.
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