Elsa Morante faz da vida uma bela metáfora
A Ilha de Arturo (Berlendis & Vertecchia, 496 pp., R$ 51) é um desses raros livros que eventualmente nos caem às mãos. Raro porque, finda a leitura, algo acrescentou-se a nós. Conta, na primeira pessoa, parte da história (infância e adolescência) de Arturo Gerace, um adulto que recorda sua vida de prazeres e descobertas na ilha de Procida, ao largo da baía de Nápoles, na Itália. São quase 500 páginas da mais pura literatura, em que o leitor acompanha o desenvolvimento de uma personalidade, selvagem e sonhadora no princípio, desencantada e pragmática no fim. A narrativa pode ser compreendida de diversas maneiras e a minha leitura tende a revestir de metáfora o realismo das cenas. É mágica a infância de Arturo: o avô deixa a ilha, que não oferece quaisquer perspectivas a seus moradores, e resolve “ganhar a América”. Antes, porém, tem uma breve passagem pela Alemanha, onde engravida uma professorinha. Rico (relativizemos aqui o rico!), volta para Procida e compra um sítio, pensando que, afinal, sustentará as próximas gerações. Um dia, procura a professorinha e descobre que está morta. Traz o filho, Wilhelm, para a ilha, e ali ele se cria, agreste.
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