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Uma história em claro-escuro

26 de julho de 2005
3 min de leitura

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A publicação de novos estudos sobre a escravidão, a tradução de importantes análises sobre o tema, a recuperação de uma obra há muito tempo fora do catálogo, a reedição comemorativa de um clássico da sociologia brasileira, tudo isso permite ao leitor perceber a rapidez com que avança a historiografia sobre os negros. Em A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico – 1400-1800 (Campus, 440 pp., R$ 76), John Thornton, professor de história da Universidade de Boston, deixa clara sua conclusão: “O comércio atlântico de escravos foi o resultado dessa escravidão interna”. Ele refuta a idéia de que, como a exportação de escravos seria prejudicial à África a médio prazo (devido à perda de mão-de-obra), as elites locais teriam sido, de alguma maneira, forçadas a consentir com o comércio. Em outra obra, uma mostra da pesquisa do pesquisador Raymundo Nina Rodrigues (1862-1906), pioneiro dos estudos do negro no Brasil, ajuda a compreender como, em poucas décadas, os estudos sobre a escravidão evoluíram. A oportunidade é dada pela reedição de Antologia do Negro Brasileiro (Agir, 592 pp., R$ 54,90), de Edison Carneiro, publicada pela primeira vez em 1950 e esgotada há tempos. Nina Rodrigues é apresentado no livro por Arthur Ramos (1903-1949), seu seguidor e responsável pela transição para a “nova história” dos negros no Brasil, na visão do inglês John Russell-Wood. “Sua missão como estudioso foi penetrar o mito da inferioridade racial atribuída a pessoas de origem negróide e conferir aos negros o respeito e o reconhecimento merecidos por suas realizações”, afirma Russell-Wood em Escravos e Libertos no Brasil Colonial (Civilização Brasileira, 476 pp., R$ 49,90). Para Russell-Wood, o grande número de alforrias concedidas ou compradas durante o período colonial “não foi acompanhado por nenhuma melhora na posição legal, da situação civil ou das condições de vida dos libertos de ascendência africana”. Ao puxar o fio cronológico da historiografia da escravidão, Russell-Wood comenta que a obra de Arthur Ramos chegou a ter grande aceitação até ser eclipsada, na década de 30, pela publicação de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Muitos contemporâneos de Freyre extrapolaram a análise de que a sociedade brasileira, se comparada à norte-americana, tinha vantagem com a escravidão. O historiador que esticou ao máximo essa linha de raciocínio foi Frank Tannenbaum, autor de Slave and Citizen, não traduzido no Brasil. Tannenbaum é citado em Além da Escravidão (Civilização Brasileira, 352 pp., R$ 39,90), de Frederick Cooper, Thomas Holt e Rebecca Scott. Para Tannenbaum, a especificidade da colonização católica se encontra na extensão do acesso à alforria, especialmente por meio da prática de autocompra e nos direitos nela implícitos. Alforria e miscigenação já são relacionados por Luiz Felipe de Alencastro, no livro O Trato dos Viventes (Companhia das Letras, 525 pp., R$ 56,50), a uma comparação que leva o leitor de volta à África, onde este texto começou. Alencastro parte do pressuposto de que, no Brasil, houve a “invenção do mulato”.

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