Fome (zero) de literatura
Em uma cultura cada vez mais dominada pela imagem, a literatura se converteu numa espécie de prima-pobre das artes. Até mesmo nas políticas públicas que estão sendo criadas, vemos grandes investimentos, inclusive das estatais, em cinema, teatro, música, dança. Em literatura, ainda, quase nada. O enfraquecimento da criação, da difusão e do acesso à produção literária, é fácil notar, descamba rapidamente para uma anestesia geral e uma incapacidade crítica e seletiva do público. Produz-se boa literatura no Brasil, mas o público não toma conhecimento, não tem acesso. É preciso, então, urgentemente, aproximar essas duas pontas do mesmo fio. No final de 2004 o governo federal anunciou a desoneração de todos os impostos da cadeia produtiva do livro e propôs, em contrapartida, que os grandes editores contribuíssem com 1% do seu faturamento bruto para a criação do Fundo Nacional do Livro. O Projeto de Lei do Livro, da Leitura e das Bibliotecas, encaminhado ao Congresso Nacional, é uma ótima iniciativa para o estabelecimento de políticas públicas, mas ignora o principal agente da cadeia produtiva: o escritor. Atentos a essas falhas, um grupo de 180 escritores de vários estados do país entregou às autoridades do Ministério da Cultura, em novembro de 2004, o manifesto Temos Fome de Literatura, com cinco reivindicações e 10 propostas básicas para o estabelecimento de políticas públicas para a literatura e não apenas para o livro. No momento em que se discute a implantação do Plano Nacional do Livro e da Leitura é importante que o poder público tenha claro a necessidade do fomento à leitura mas também à criação literária, e não apenas ao seu produto, o livro. Livro pode ser qualquer um. Literatura são outros quinhentos. Isso é fundamental para que tenhamos um país não apenas de leitores, mas de bons leitores. E uma literatura forte, viva, em movimento, que possa se ombrear a de qualquer outro país do planeta.
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