O humor e o amor na poesia
Dois novos lançamentos – Parte Alguma (poesia 1997-2004) (Companhia das Letras, 120 pp., R$ 29), de Nelson Ascher, e Uns e Outros Poemas (1985-2005), (Landy, 104 pp. R$ 25) de Rodolfo Witzig Gutilla -, de autores paulistanos, mostram como a poesia pode ser econômica, estruturada e ainda bem-humorada. Os dois livros ressaltam suas ascendências, prestando suas homenagens e embaixadas, tratam de temas retirados ao cotidiano, porém com forte apelo a assuntos digamos graves, mas nem por isso cortam os pulsos (do leitor, inclusive) em versos de explícito desregramento. Parte Alguma, de Nelson Ascher, pesa mais para humor como forma de explicitar o ridículo ou o banal das situações. Mesmo estruturado em estrofes de quatro versos, com uma exigente simétrica, com rimas internas às vezes preciosas, sempre dentro de um cadenciado ritmo, a obra de Ascher quase nunca se furta a dourar o humor em forma de realce, eclipsando as situações. Já a poesia de Rodolfo Gutilla, em Uns e Outros Poemas, também recorre ao humor, porém num diapasão sintonizado com outras harmonias. Com versos mais soltos, também mais longos, nem sempre em estrofes, preferindo as estruturas brancas, seu trabalho incorpora não apenas o Oswald de Andrade galhofeiro, mas o Drummond romântico e o Manuel Bandeira iconoclasta, irônico. Em outros momentos, apela à tradição dos haicais para contemplar seu humor e crítica.
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