O lado avesso da vida americana
Quando começou a escrever Encontro em Samarra (Ediouro, 264 pp., R$ 39,90), em meados de dezembro de 1933, John O’Hara era um jornalista de 28 anos recém-divorciado que se destacava principalmente pelo volume de horas extras que fazia, pela quantidade de bebida que era capaz de ingerir e pelo número de empregos dos quais já fora demitido. Tivera e perdera empregos no Journal, de Pottsville; no Courier, de Tamaqua; no Herald Tribune, de Nova York; na revista Time; na The New Yorker; no Editor and Publisher; no Daily Mirror, de Nova York; no Morning Telegraph; no departamento de publicidade da Warner Brothers; na empresa de relações públicas de Benjamin Sonnenberg; e numa nova revista de Pittsburgh, chamada Bulletin Index, da qual por quatro meses foi editor. Em todos esses cargos O’Hara demonstrou competência, mas a combinação de horários irregulares com sua abrasividade inata causava sempre sua saída prematura dos empregos. Dorothy Parker foi quem encorajou o jovem da Pensilvânia – de volta a Nova York após largar o cargo de editor em Pittsburgh – a concentrar as energias num romance de grande porte sobre Pottsville. A cidade natal de O’Hara já figurava em seus textos de ficção, e entre os seus planos estava escrever um livro com três contos longos sobre ela. A obra recebeu elogios de Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, que escreveu na Esquire: “Se você deseja um livro escrito por um homem que sabe exatamente do que está falando, e escreve maravilhosamente bem, leia Encontro em Samarra, de John O’Hara”. O elogio de Dorothy Parker foi mais mordaz e judicioso: “Dos olhos e ouvidos do senhor O’Hara nada foi poupado, mas no coração ele guardou uma misericórdia amarga e intrigante”.
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