O Estado como fonte de medo e terror
De agora em diante, para desafogo de uma vida editorial que sufoca os estudos sociais no limbo dos restritos espaços acadêmicos e dos círculos bem pensantes, o Brasil dos tempos pétreos de Lula já tem o seu libelo antibélico tão veemente quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), e de análise histórica e social tão percuciente – embora não menos polêmica – quanto Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (1933). Trata-se do monumental Guerra Civil – Estado e Trauma (Geração Editorial, 962 pp., R$ 79), de Luís Mir, um livro de difícil catalogação, visto que é muita coisa ao mesmo tempo: história, sociologia, jornalismo, crítica, denúncia social e, de certo modo, drama impiedoso com proporções de tragédia. De início, diga-se que Luís Mir não é nenhum novato: seu livro anterior, A Revolução Impossível (Editora Best Seller), trabalho de pesquisa inexcedível, tornou-se clássico. Pois é este escritor diligente e infatigável, de estatura moral única, que desnuda com precisão e metodologia criativa a guerra civil indisfarçável que hoje assola todo território brasileiro, notadamente as periferias urbanas e os guetos das favelas (que crescem com vigor a partir da guerra republicana de Canudos), a sacrificar, a cada ano, segundo dados estatísticos mais confiáveis, algo em torno de 150 mil pessoas.
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