O marginal imortal
Na ficha da última internação de Afonso Henriques de Lima Barreto, ocorrida em 25 de dezembro de 1919, o funcionário do hospício Nacional registrou sobre o paciente: “Diz-se escritor”. A curta frase e seu contexto revelam muito da vida do carioca Lima Barreto (1881-1922), um dos maiores escritores brasileiros: mesmo já tendo publicado romances importantes como Triste Fim de Policarpo Quaresma, ainda não era publicamente reconhecido; mesmo consciente de seu talento e preocupado com sua carreira, não conseguia se livrar de uma rotina marginal, combinando pobreza, álcool e delírios. Da mesma ficha de internação consta uma foto. Foto e ficha estavam escondidas nos arquivos do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, que funciona no prédio do antigo hospício Nacional, na Urca. Elas aparecem em Toda Crônica (Agir, cerca de mil páginas), caixa com dois fundamentais volumes que chega às livrarias neste mês. Na obra, todos os textos foram dispostos em ordem cronológica, o que permite acompanhar certas campanhas que Lima fazia nas crônicas. Por exemplo: contra a modernização do Rio no início do século 20, projeto que queria fazer da cidade uma Paris tropical, expulsando pobres para subúrbios e morros.
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