Catatau ganha terceira edição
João Cabral de Melo Neto dizia evitar os recursos musicais mais salientes em sua poesia para impedir que o leitor, enlevado pela melodia, se afastasse do sentido do texto. Ao ler o livro Catatau, de Paulo Leminski, a impressão que temos é que o seu autor desejou o contrário. O texto, narrativo, é atravessado pelos recursos próprios da poesia – assonâncias, aliterações, rimas, trocadilhos – que criam uma música cuja intensidade afasta o leitor do sentido do texto. É preciso um enorme esforço para se manter atento ao que o texto narra, porque os efeitos sonoros são muito ostensivos. Catatau, lançado pela primeira vez em 1975, recebe agora sua terceira edição (Travessa Editores, 425 pp., R$ 50). Dessa vez, além do texto – em edição crítica estabelecida por meio do cotejo das duas primeiras edições e do manuscrito -, a edição traz fortuna crítica, critérios filológicos aplicados no estabelecimento do texto, nota biográfica, bibliografia de Leminski e iconografia. O livro parte de uma hipótese: o que teria acontecido se o filósofo Descartes tivesse aportado no Brasil junto da comitiva de Maurício de Nassau, no século XVII? A partir desse enredo Leminski constrói sua fábula que se coloca na esteira de outras narrativas intensamente poéticas da literatura brasileira, como o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e as Galáxias, de Haroldo de Campos, que também ganhou recentemente uma nova edição (editora 34).
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