A cidade dos cronistas
Os que estão mortos viraram nome de ruas. Os que estão vivos andam sobre elas à procura de assunto, mercadoria farta em São Paulo, a cidade dos cronistas. Do padre Anchieta a Ignácio de Loyola Brandão, a vila que virou metrópole teve tão bons autores do gênero que é até arriscado fazer a lista dos principais sem esquecer um ou outro nome importante. Entre os que trocaram a cidade pela eternidade e viraram nome de rua, Álvares de Azevedo (1831-1852) fez a pior troca. Considere, por exemplo, o diálogo entre Macário, um dos seus mais conhecidos personagens, e Satã. Aqui, ele teria mais diversão que na casa do diabo, que descreve São Paulo como uma cidade de mulheres lascivas, padres dissolutos, soldados ébrios e estudantes vadios. Macário acha que o demônio fala do inferno até descobrir que descreve sua cidade.
São Paulo foi odiada, mas também amada. Tanto que um de seus mais ilustres cronistas, Marcos Rey, fez um helicóptero espalhar suas cinzas sobre ela há quatro anos. Seu espírito paira sobre São Paulo como os fantasmas que habitam o primeiro arranha-céu da cidade, cenário de seu livro O Último Mamífero do Martinelli, publicado há dez anos. Nele, um fugitivo político dos anos 1970 encontra abrigo no Martinelli quando – então ainda não recuperado – o edifício era um espelho da ruína urbana em que o centro da cidade se transformou.
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