A farsa de Varsóvia
Yossel Rakover dirige-se a Deus (Perspectiva, 104 pp., R$ 10) “queima como um jato em chamas”, diz Paul Badde, e com uma “tal intensidade que poderia provir de Shakespeare”. É um documento cheio de questões, tendo permanecido por muitos anos envolvido em dúvidas. Uma delas mora inteira dentro desta pergunta: como é possível que estejamos hoje, aqui, a falar dessa carta que o judeu Yossel Rakover escreveu horas antes de morrer fuzilado pelos nazistas e depois queimado pelas chamas naquele 28 de abril de 1943? Responde-nos a epígrafe que abre o testemunho: “Nas ruínas do Gueto de Varsóvia encontrou-se, enterrada sob montanhas de pedras calcinadas e restos humanos, uma garrafa. Ela guardava o seguinte testamento, escrito por um judeu chamado Yossel Rakover algumas horas antes do aniquilamento do gueto.” Ainda assim, a despeito de sua epígrafe, uma sombra permaneceu por muito tempo a pairar sobre o texto: quem foi Yossel Rakover? O autor empírico do texto ou um personagem, um dos mais vivos e trágicos já criados por um autor? A resposta reside em alguma noite do ano de 1946, quando um judeu chamado Zvi Kolitz, então com 26 anos, sentado em sua mesa num quarto de hotel em Buenos Aires, escreveu, de uma tacada e em ídiche, o conto “Yossel Rakover dirige-se a Deus”. O texto foi publicado no mesmo ano, no dia 25 de setembro, no jornal Ídiche Zeitung, de Buenos Aires.
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