Poesia e pensamento abstrato em Júlio Castanõn Guimarães
“Todo poeta verdadeiro é muito mais capaz do que se pensa geralmente de raciocínio exato e de pensamento abstrato”, escreveu Valéry no ensaio Poesia e Pensamento Abstrato. Eu não saberia identificar hoje na poesia brasileira um autor que encarnasse melhor esse “pensamento abstrato” do que Júlio Castañon Guimarães, que acaba de lançar Práticas de Extravio (7 Letras, 64 pp., R$ 15). Castañon Guimarães pode ser inserido, ao lado de Duda Machado, Régis Bonvicino e Nelson Ascher, no contexto do pós-concretismo. Seu título anterior (Matéria e Paisagem, de 1998) reunia tanto a produção mais recente, de feição lírica, quanto os poemas de seus dois primeiros livros (17 Peças e Vertentes), em que a exploração da visualidade e as referências a Pound e a Augusto de Campos denotavam sua dívida em relação aos concretistas. Práticas de Extravio, contudo, assinala um desvio. Como se sabe, uma das características centrais da poesia concreta é a metalinguagem, em que a palavra é o objeto do poema, em que a construção verbal aparece como fim último da própria literatura. No caso de Castañon Guimarães, os poemas também tratam da linguagem, mas numa outra ordem, que poderíamos chamar de “moral”.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta


