Em Dostoiévski, erro humano se entrelaça à ausência de Deus
É preciso certa coragem para se aproximar do universo de Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Há a famosa profusão dos nomes russos e de seus diminutivos; a trama cheia de nós que não desatam; uma impressão constante de congestionamento espacial, de asfixia, de superpopulação; sem contar o próprio tamanho dos romances mais famosos. Uma novela curta como “A Dócil” não tem por que intimidar tanto o leitor. Exceto por uma razão, bem mais profunda do que as citadas acima. O principal motivo para o medo que Dostoiévski possa inspirar talvez esteja na seriedade, na gravidade com que encara a capacidade humana para o erro, para o pecado, para o mal. A tradução de Fátima Bianchi, para a Cosac e Naify (Uma Criatura Dócil, 93 pp., R$ 22), é mais “literária”. A de Vadim Nikitin, para a 34 (Duas Narrativas Fantásticas – A Dócil e Sonho de um Homem Ridículo, 128 pp., R$ 23), pareceu-me mais clara e coloquial; no próprio excesso de notas de rodapé, é como se reproduzisse a ansiedade do narrador.
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