A utopia estraçalhada de Vargas Llosa
O inusitado laço familiar que une a feminista Flora Tristán (1803-44) e o pintor pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903) tem seu nó não na Paris em que ambos nasceram e se fizeram conhecidos, mas no remoto e exótico Peru, onde passaram tempos determinantes de suas vidas.
Foi durante sua estada em Arequipa que Tristán, presenciando os abusos da elite local contra a população indígena e mestiça, tornou-se uma ativista política. E foram os anos da infância vividos em Lima que fizeram surgir em Gauguin a sensibilidade em relação às culturas então ditas primitivas. A coincidência entre as duas biografias não é apenas geográfica. Tristán foi a avó materna de Gauguin. Os dois nunca se encontraram em vida, mas agora, pelas mãos do peruano mais conhecido de nossos dias, estão unidos para sempre, pela literatura. O Paraíso na Outra Esquina (Arx, 493 pp., R$ 53), o mais novo livro de Mario Vargas Llosa, lança-se sobre as duas trajetórias, não para fazer uma reconstituição histórica, mas para construir um consistente romance.
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