Ler o Som: Zé Orenstein revela como prender o ouvinte até o último segundo
Pedro Milman, do Sputnik, puxa um debate sobre 'soberania digital'; Rosiska Darcy de Oliveira estreia a terceira temporada do podcast Um Oceano Delas; e Supersônica anuncia que fará um segundo audiolivro de Anne Carson
Viva-voz com Zé Orenstein, da Trovão Mídia
O episódio que mais preocupava a equipe da audiossérie O Berro do Boi acabou sendo o que mais prendeu a atenção dos ouvintes. Dedicado à delação premiada de Joesley Batista, em 2017, o terceiro capítulo da série exigiu muitas horas de escuta de depoimentos em juridiquês e parecia ter todos os ingredientes para espantar o público. Pois 88% dos ouvintes chegaram até o fim! “A Ana Bonomi, minha sócia, brinca que a gente vai botar esse número na nossa lápide, um grande feito”, diverte-se Zé Orenstein, da Trovão Mídia, nesta entrevista à Ler o Som. Uma pequena vitória para quem acredita que ainda há ouvidos dispostos a acompanhar histórias longas e complexas em tempos instantâneos.
Foram quase três anos entre a primeira ideia e a estreia efetiva de O Berro do Boi, podcast investigativo com reportagem e narração chiada a la carioca de Consuelo Dieguez. Ao lado de Ana Bonomi e da renomada jornalista, Zé trabalhou na construção de uma narrativa em que a apuração, o roteiro e o desenho de som caminham juntinhos. Nesta conversa (que ficou um dedinho longa, mas interessantíssima), ele conta como se descobre o som de uma reportagem, por que escrever para os ouvidos exige uma linguagem diferente daquela que funciona no papel e o que faz alguém continuar escutando até subirem os créditos finais. Porque, como ele mesmo diz, “o desenho de som é a alma do podcast”. Leia a coluna de Monica Ramalho!
1. Zé, o que uma história precisa ter para você pensar: isso precisa ser contado ao pé do ouvido?

Pensando no podcast de tipo narrativo, com roteiro, que se presta a contar uma história com começo, meio e fim, e não exatamente no podcast de conversa, uma história precisa ter personagem. E também uma linha de ação muito clara. A história precisa andar por meio da ação.
O Ira Glass, do This American Life, fala bastante sobre isso, sobre como o que mantém a nossa atenção na história é a ação. “Aconteceu isso, depois aquilo e depois aquilo outro.” A gente tem que colocar o ouvinte dentro dessa ação pela descrição mesmo do que vai acontecendo, dos ambientes e dos passos do personagem.
Além de personagem e ação, é importante ter também uma pergunta, que pode ser um mistério, que pode ser, enfim, algo que precisa ser respondido, uma pergunta central. Em suma, um recorte para a história. Contar uma história de um tema não funciona. Mas, se você tem um recorte sobre aquele tema, uma pergunta sobre o tema, já funciona.
Esses são os elementos que levo em consideração.
E, claro, uma história, para funcionar em áudio, precisa ter… áudio. Então, idealmente, material que tenha sido gravado em campo, material de arquivo. Uma história de uma época sem áudio fica um pouco mais difícil de ser contada, pensando em tempos mais antigos, em que não havia registro ou em que você não tem entrevistas, sabe? Mas é possível também, embora um pouco mais difícil.
2. Foram quase três anos entre a ideia e a publicação de O Berro do Boi. Como vocês descobriram qual era o som dessa história e o que só apareceu quando a Consuelo Dieguez foi para a rua com o gravador?
A gente descobriu “o som da história” só depois que a Consuelo foi para a rua e que a gente começou a ouvir os primeiros áudios. Mas a estrutura da história do podcast a gente descobriu antes.
Um podcast desse tipo envolve uma apuração e uma pesquisa, um trabalho de reportagem jornalístico muito grande, e o desenho de um arco narrativo, que a gente faz antes, a partir da leitura, da pesquisa inicial – e que vai mudando ao longo da apuração.
Então, a gente sempre estrutura um arco narrativo de sinopses, depois escaletas por episódio, para pensar os movimentos de ação e como a história vai andar.
Aí, a partir do que vem dos áudios, a gente vai lapidando o que é esse som. E o som envolve o ritmo da narração, mas envolve também a trilha sonora e o uso das “sonoras” – que são os áudios colhidos, seja ambiente, seja dos entrevistados e das situações em que a Consuelo se colocou.
A descoberta do que é o som, de fato, acontece mais no fim do processo. Porque depois da reportagem, tem a etapa de escrever o roteiro, gravar a locução e, só aí, então, a montagem e mixagem, que é quando a gente vai entender como está soando – o que precisa regravar, remontar, cortar, etc.
Foram quase três anos de trabalho desde a fagulha inicial, da ideia. E esse tempo todo de produção envolve etapas complementares, com muitas idas e vindas na pós-produção.
3. Em O Berro do Boi, a reportagem vira também matéria sonora: frigoríficos, fazendas, animais, máquinas, vozes, silêncios. Até onde o desenho de som pode interpretar uma reportagem sem editorializá-la?
O desenho de som é a alma do podcast. Senão, seria só uma reportagem de texto, como as que a Consuelo Dieguez já faz tão bem. Sobre os próprios irmãos Batista, lá em 2015, ela escreveu um excelente perfil.
A reportagem pode ser, no texto, descritiva e mobilizar a imaginação do ouvinte. Mas a mágica do podcast é que ele dá mais corpo a essa imaginação, dá elementos para o ouvinte se sentir mais dentro da cena, e trazer uma emoção.
Quanto a não editorializar eu acho que, no fundo, é o recorte que está em jogo, como eu disse antes. Qual a pergunta que a gente está querendo responder? E pensar sempre, quando você está montando e fazendo esse desenho de som, em colocar essas ferramentas do áudio a serviço da sua pergunta, do seu recorte, do seu objetivo ao contar aquela história.
E, no caso, a gente está dentro de um registro jornalístico. A gente tinha muito claro o que queria responder e também os nossos princípios, a ética e a técnica jornalísticas.
4. Você e Ana Bonomi trabalham o roteiro ao lado da Consuelo Dieguez, que apura e narra a série. O que muda na escrita quando uma frase não foi feita para os olhos, mas para chegar ao leitor pela voz?
Muda tudo na escrita para os olhos e na escrita para os ouvidos. Quando a gente trabalha com o roteiro, com a Consuelo, a gente está o tempo inteiro lendo em voz alta. Porque uma frase, às vezes, pode funcionar perfeitamente no papel, e aí você lê e ela não faz sentido quando é falada.
Na escrita para áudio, acho que você não pode, como quando está lendo um livro, uma reportagem, voltar uma linha, reler uma frase. Até dá, você pode dar o pause ali, mas não é assim que funciona. É para fluir.
Então, o texto precisa ter uma clareza muito grande, imediata. E significa que a gente vai sempre buscar esse texto mais límpido, de frases mais curtas, em ordem direta, sem abrir orações subordinadas, pensando sempre no ritmo e nas palavras de fácil entendimento. Sem, no entanto, perder complexidade, sem perder a riqueza do que está sendo contado.
E a voz, quando o texto é escrito para ser lido, permite algumas coisas que o texto impresso, de reportagem, por exemplo, não permite – como repetições, pausas. Você consegue modular muito melhor isso, reproduzindo um pouco a linguagem de uma conversa entre amigos, informal.
No caso desse roteiro, ainda tem esse algo a mais, que é a Consuelo quem lê. Então, a gente tinha um trabalho bem interessante de soar como algo que ela diria. E que, idealmente, a pessoa que está ouvindo não sinta que está sendo lido.
Que, de novo, coloque quem está ouvindo do lado dela nas cenas que ela descreve ou, nos momentos mais reflexivos, sentada com ela num café, ouvindo o que ela tem para contar.
Então, é esse desafio grande de trabalhar o texto de uma forma bastante diferente do que um jornalista de texto impresso está acostumado.
5. Depois de Alexandre, O Berro do Boi e de dezenas de produções da Trovão Mídia, o que você aprendeu sobre manter alguém ouvindo uma história longa num tempo de atenção cada vez mais curta?
Olha, os nossos podcasts narrativos, com episódios que vão de 30 a 40 minutos, mostram para a gente que as pessoas ainda mantêm a capacidade de prestar atenção. E os números de retenção que a gente vê nesses podcasts são muito altos. Acima de 80%, às vezes 85% do público ouve até o fim, ou seja: ouve 90%, 95% dos episódios, basicamente até os créditos. Então, é bastante alto. Elas ouvem os episódios e com atenção.
Mas acho que volta um pouco aos pontos anteriores que a gente falou, de uma história que precisa ter ação, que precisa ter personagens bem desenhados e que geram algum tipo de conexão com quem está ouvindo. E isso vale para os personagens que a gente está descrevendo e descobrindo, mas também para a narradora ou narrador, que acaba sendo um personagem também e gera essa conexão.
Passa muito pela questão do ritmo, que é algo que você só vai compreender na pós-produção, nas ouvidas e mais ouvidas, idas e vindas na edição. Você monta, ouve e vai cortando e melhorando e melhorando. Não tem jeito.
Inclusive, dando para outras pessoas ouvirem e comentarem sobre o que não ficou claro. Porque, às vezes, você está tão mergulhado ali e acha que está muito claro, aquele princípio de uma clareza absoluta, e, na verdade, não acontece quando a outra pessoa vai ouvir, porque não está tão mergulhada naquele assunto.
Então, é esse trabalho muito meticuloso, meio maluco, artesanal, de ir burilando a história até ela ficar fácil de ouvir.
E o nosso grande orgulho com O Berro do Boi é o tereceiro episódio, em que a gente mergulha nas questões da delação premiada feita pelo Joesley Batista lá em 2017, um momento muito turbulento do Brasil, sobre o qual as pessoas têm uma lembrança vaga, mas que foi uma avalanche de notícias e desmentidos. Ouvimos muitas e muitas horas de delações em juridiquês.
E quando a gente estava montando a escaleta e o desenho dos episódios, falava: “Esse aqui a gente corre o risco de perder os ouvintes”, porque é um assunto árido, chato, burocrático.
E, para nossa surpresa, esse foi o episódio com a maior retenção de ouvintes até o fim. Deu que 88% dos ouvintes chegaram até o fim, o que foi bastante alto. A Ana Bonomi, minha sócia, brinca que a gente vai botar esse número na nossa lápide, um grande feito.
Então, tudo isso para dizer que, mesmo diante de assuntos difíceis, às vezes aparentemente desinteressantes, é possível manter a atenção das pessoas. A disposição do público por boas histórias, longas e complexas, está ali. Um pouco adormecida pelas redes sociais e pelos estímulos imediatos que o celular traz, mas tem espaço. Esses dois podcasts que a gente fez, “Alexandre” e “Berro do boi”, que conseguiram números muito expressivos de audiência, mostram isso.
GRAÚDAS
SPUTNIK EM ÓRBITA | Um convite para gravar nove audiolivros mudou a história do Sputnik Phonograms, onde está sendo gravado o audiolivro de Filho, escrito e narrado pelo jornalista Thallys Braga. O ano era 2018 e o músico Pedro Milman enxergou um nicho de mercado, ainda que incipiente àquela altura. Oito anos depois, o estúdio carioca já soma cerca de 800 títulos produzidos, numa média de cem por ano. E cresceu tanto que precisou mudar de endereço: hoje ocupa um espaço maior e mais confortável na Glória, no Rio de Janeiro. Casado com a cantora novaiorquina Alma Thomas (canta muito, gente!), Pedro está cada vez mais empolgado com os audiolivros, tanto que ele mesmo se dedicou a narrar alguns. A aposta virou negócio. E dos bons.
SOBERANIA DIGITAL | Uma atualização de software quase custou uma pequena fortuna ao músico Pedro Milman, à frente do Sputnik Phonograms, no Rio de Janeiro. Os problemas de compatibilidade levaram Pedro a procurar outra saída. “Comprei quatro computadores e instalei Linux pelo valor de um MacBook. É audiovisual de guerrilha”, contou à Ler o Som. Deu trabalho, mas valeu pela economia: hoje, o Sputnik usa softwares livres em todo o processo de edição, finalização e masterização dos audiolivros. Pedro chama essa escolha de “soberania digital” e agora quer levantar essa bandeira para além das paredes do estúdio: está articulando a produção de um audiodocumentário sobre o tema. Ele procura escritores, jornalistas e outros profissionais interessados em participar de sua elaboração, além de parceiros institucionais que possam colaborar com a distribuição. A ideia — essencial para o momento, diga-se —, é discutir como produzir áudio sem ficar refém das grandes empresas de tecnologia.
NA TV, SEM IMAGEM | Na Rússia, até os audiolivros estão ganhando cara de série de televisão. O serviço de streaming Kion passou a oferecer mais de 230 títulos do seu selo Kion Stroki diretamente no aplicativo para Smart TVs e Android TV. Os capítulos dos livros aparecem como episódios de séries, permitindo que o público navegue pelas histórias com o controle remoto. O catálogo reúne sete categorias, entre clássicos, romances, suspense, fantasia e literatura infantil, com títulos como O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov. A empresa também estuda sincronizar o progresso da escuta entre a TV e outros dispositivos, para que o ouvinte possa continuar a história de onde parou. O audiolivro começa a disputar espaço não apenas nos fones de ouvido, mas também na tela grande. Leia a notícia no original, em russo!
ESCUTA ESSA
LIVRE E MALCRIADA | Antes mesmo de aprender a ler, Rosiska Darcy de Oliveira já viajava nas histórias contadas pela irmã mais velha. Depois vieram Monteiro Lobato (1882-1948) e Emília, a boneca que lhe ensinou o sagrado direito à malcriação. Essa é uma das muitas lembranças que a escritora carioca, integrante da Academia Brasileira de Letras, compartilha na estreia da terceira temporada de Um Oceano Delas, podcast conduzido por Julia Casotti e por esta colunista. Aos 82 anos, Rosiska fala sobre o feminismo, a luta contra a ditadura, o exílio, o trabalho ombro a ombro com Paulo Freire, as mulheres que a inspiram e a liberdade de escolher os próprios caminhos. Também conta como foi ver a sua vida contadas em imagens no livrão Rosiska, uma fotobiografia (Edições Pinakotheke, 2026). Dá um pulo aqui!
ANNE CARSON EM ALTA | A canadense Anne Carson venceu o Nobel de Literatura esta semana, tornando-se a 19ª mulher a receber o prêmio em mais de um século, aos 76 anos. Desde então, o seu nome está quicando nas conversas dos leitores brasileiros. Fomos atrás dos seus audiolivros, claro, e encontramos um título em português: Autobiografia do vermelho (Editora 34, 2021, tradução de Ismar Tirelli Neto), produzido pela Supersônica e narrado pela atriz Bianca Comparato. Senta que lá vem história. A Supersônica contou à Ler o Som que já prepara a adaptação de A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos (Bazar do Tempo, 2024), com lançamento previsto para 2027. Uma atriz renomada foi convidada para assumir a narração, mas seu nome continua guardado a sete chaves. Ouça agora no Spotify!
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