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Três perguntas do PN para Caetano Cury

23 de setembro de 2026
5 min de leitura
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Criador do personagem Téo e o mini mundo reúne 74 tirinhas produzidas desde 2022 no livro 'Viver é um risco', da Editora Composição

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Há 14 anos, Caetano Cury desenha um menino de poucos traços, olhos enormes e perguntas grandes demais para caber no seu pequeno mundo. Téo nasceu em 2012, cresceu sem que o autor planejasse e, entre uma tirinha e outra, foi trocando o microscópio com que observava os outros por um olhar cada vez mais voltado para dentro.

É esse personagem que revela o seu mundinho em Viver é um risco (Editora Composição), que chega às livrarias com 74 tirinhas produzidas entre 2022 e 2026. O título parte de um trocadilho com um risco desenhado no chão, mas logo escapa do desenho: nas páginas, Caetano fala de tempo, medo, amor, perdas, escolhas e da imprevisibilidade de estar vivo. Tudo com a economia de quem aprendeu que algumas perguntas complexas podem caber em poucos quadros.

Antes de viver com lápis na mão, Caetano trabalhou durante 17 anos no rádio, experiência que talvez ajude a explicar a síntese como um dos pilares do seu trabalho. No Três Perguntas do PN, o quadrinista fala sobre o que mudou em Téo e nele próprio desde então, sobre a finitude que o acompanha desde a infância e sobre o parentesco inesperado entre duas linguagens aparentemente distantes: o rádio e os quadrinhos. Leia!

PUBLISHNEWS – Viver é um risco reúne tirinhas produzidas entre 2022 e 2026 e o título nasce de um trocadilho com um risco desenhado no chão. Mas, olhando para essas 74 tirinhas juntas, que riscos viver passou a significar para você nesses quatro anos?

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CAETANO CURY — Pensar sobre a vida e sobre a finitude é uma coisa que me acompanha desde que eu era criança. Com o tempo, a gente vai acumulando perguntas e respostas sobre quem somos, sobre o que estamos fazendo aqui, sobre o que vale a pena e sobre o fato de que tudo pode acabar instantaneamente. Esses quatro anos foram mais quatro anos desse acúmulo de experiências, perdas, mudanças e reflexões.

Então, quando olho para as tirinhas reunidas, acho que esse risco tem muito a ver com aceitar que viver é estar exposto ao imprevisível. A gente faz planos, tem desejos, ama, sente medo, segue em frente sem ter controle completo sobre o que vem depois. E talvez seja justamente essa fragilidade que faça a vida ter tanto valor.

PN — Téo está na sua rotina há 14 anos. O personagem envelheceu junto com o seu criador? Você reconhece nas tirinhas de hoje preocupações que não existiam no Mini Mundo de 2012?

CAETANO — O Téo vem mudando com o tempo. Ele é um personagem muito orgânico. Eu não fico olhando o primeiro desenho para tentar repeti-lo e fazer com que ele seja sempre igual. Eu desenho de acordo com a imagem que tenho dele na cabeça, e essa imagem foi se transformando à medida que eu fui desenhando.

Eu tento preservar a mesma caneta e a técnica da aquarela que uso desde mais ou menos a metade do primeiro livro, mas o personagem mudou. Algumas pessoas dizem até que ele cresceu. Isso nunca foi planejado. É como se ele tivesse uma vida própria.

Em relação às preocupações e aos questionamentos, a essência continua sendo a mesma. A principal diferença é que, no primeiro livro, o Téo observava muito as pessoas através do microscópio. Principalmente nas primeiras tirinhas, ele estava muito interessado na vida dos outros.

Hoje, ele olha muito mais para si. O microscópio já não está tão presente. Ele vive as situações e reflete sobre ele mesmo. Olha mais para dentro.

Talvez ele tenha ficado menos ingênuo e menos melancólico. No começo, era um personagem muito triste e muito medroso. Hoje, me parece um pouco mais pé no chão. Ele foi aprendendo algumas coisas com a Eulália e já não é tão triste nem tão medroso quanto era.

Não sei dizer exatamente de que maneira isso se conecta com a minha própria vida. Mas sei que se conecta. De alguma forma, o Téo é um espelho de uma vida verdadeira, mesmo que eu não saiba, e nem queira, explicar exatamente de qual maneira.

PN — Você trabalhou 17 anos em rádio antes de se dedicar exclusivamente aos quadrinhos. As duas linguagens exigem uma enorme capacidade de síntese: no rádio, há o tempo; na tirinha, o espaço. Diz aqui: o jornalista ainda trabalha junto com o quadrinista quando você precisa fazer uma ideia ou um sentimento caber em poucos quadros?

CAETANO — Apesar de rádio e quadrinhos parecerem linguagens muito diferentes, no fim das contas existe uma coisa em comum: não desperdiçar o tempo da outra pessoa.

Às vezes a gente escreve demais, fala demais, explica demais. Tem aquela frase famosa: “essa reunião poderia ter sido um e-mail”. Os quadrinhos que eu faço têm um pouco dessa lógica também.

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Sempre tive dificuldade de escrever coisas muito longas. Tenho uma facilidade maior para tentar descobrir o que realmente importa em uma ideia e chegar até aquilo de uma forma mais simples. No rádio, isso era fundamental. Você precisa extrair o que é mais interessante daquela história e economizar o tempo de quem está ouvindo.

Também existe uma questão de prender a atenção, ainda mais hoje, em um mundo cheio de estímulos e informações o tempo inteiro. Aprendi com o jornalismo, muitas vezes de maneira intuitiva e também observando os colegas, algumas técnicas de síntese.

Mas eu já fazia quadrinhos antes de trabalhar em rádio. Então não sei exatamente o que veio primeiro: se levei a síntese dos quadrinhos para o rádio ou se o rádio acabou influenciando a maneira como faço quadrinhos.

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Monica Ramalho

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