Não é a literatura que envenena a vida
Durante a recente campanha eleitoral na Espanha para renovação das municipalidades e comunidades autônomas, alguns políticos da oposição descobriram que Miriam Tey, diretora do Instituto da Mulher – um organismo oficial -, havia publicado em sua pequena editora, El Cobre, um livro de contos de Hernán Migoya intitulado Todas Putas, no qual os personagens de duas histórias fazem uma apologia do estupro.
Imediatamente foi iniciada uma campanha exigindo a renúncia de Miriam Tey e do ministro do Trabalho, Eduardo Zaplana, que a havia nomeado para dirigir aquele instituto. A pressão teve efeito, pois a editora El Cobre decidiu retirar o livro de circulação. Ninguém prestou a menor atenção às declarações de Hernán Migoya, recordando que não se deve confundir os personagens de uma ficção com o autor que os inventa, atribuindo a este as opiniões daqueles (se não fosse assim, os três astros do cinema espanhol, Buñuel, Berlanga e Almodóvar deveriam ter sido condenados à prisão perpétua por propagarem a “violência doméstica” e não sei quantos horrores mais).
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