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O rosto de Clarice

13 de julho de 2005
2 min de leitura

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Cada dia para Clarice era um fardo cheio de esperança. Bastava tomar café, comer, saber de alguma boa intriga ou peripécia, para lhe nascer uma réstia de ilusão. Logo, porém, os olhos verdes, aflitos e intensos, pareciam transmitir a mensagem: tudo que vejo nesta sala me é familiar e monótono. Será que a vida não pode se renovar ao menos para surpreender-me? Certa tarde, fomos ao auditório da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Após intenso debate entre dois proeminentes teóricos, Clarice Lispector ergueu-se irada de sua cadeira, instando-me a segui-la. “Diga a eles que se eu tivesse entendido uma só palavra de tudo o que disseram, eu não teria escrito uma única linha de todos os meus livros.” Clarice era assim. Ia direto ao coração das palavras e dos sentimentos. Conhecia a linha reta para ser sincera. Por isso, quando o arpão do destino, naquela sexta-feira de 1977, atingiu-lhe o coração às 10h20 da manhã, paralisando sua mão dentro da minha, compreendi que Clarice havia afinal esgotado o denso mistério que lhe freqüentara a vida e a obra. E que embora a morte, com sua inapelável autoridade, nos tivesse liberado para a tarefa de decifrar seu enigma – marca singular do seu luminoso gênio –, tudo nela prometia resistir ao assédio da mais persistente exegese. E embora o teatro humano lhe trouxesse um drama composto de cenas exauridas e de final previsto, ainda assim deixava Clarice à mostra -– para eu jamais esquecer, pois seria um dos seus preciosos legados –, um rosto russo e melancólico, desafiante e misericordioso. Neste rosto de Clarice convergiam aquelas peregrinas etnias que venceram séculos, cruzaram Oriente e Europa, até que ancorassem no litoral brasileiro, onde veio ela afinal tecer ao mesmo tempo o ninho da sua pátria e o império da sua linguagem. Estava nela, sim, estampada, a difícil trajetória da nossa humanidade, enquanto outra vez seu olhar pousava resignado na areia da Praia de Copacabana que o carro, devagar, ia deixando para trás. (Para ler o texto na íntegra, clique no título da matéria.)

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