Lição de angústia do poeta
Em entrevista concedida em 1944 à revista Leitura, Mário de Andrade, a propósito de uma possível reedição de sua obra, afirma que o interesse desta estaria em seu caráter de biografia moral, isto é, de “experiência de identificação do artista com o que deve ser um artista”. Para o poeta e líder modernista, colocava-se aí mais uma vez o ”dever ser” como questão que tornou toda a sua atividade intelectual refém do conflito entre necessidade e impossibilidade de conciliar o interesse individual e o coletivo, o sentimento do artista e as exigências da expressão ditadas por sua responsabilidade política. E é justamente esse o enfoque escolhido por Eduardo Jardim em Mário de Andrade: a morte do poeta (Civilização Brasileira, 156 pp., R$ 24,90). Concentrando-se nos últimos anos de vida de Mário, entre 1938 e 1945, ele enfatiza nesse período a intensidade angustiada da auto-crítica do escritor, que chega ao ponto do desejo de morte, face à consciência do fracasso dessa constante tentativa de conciliação. Morte e vida, no entanto, se entrelaçam na experiência do poeta.
Focalizando, além de cartas e ensaios, aspectos da produção poética do escritor, Eduardo mostra ainda que nesta todos esses elementos conflitantes são motores de uma configuração discursiva antitética como a de seu último poema, a “Meditação sobre o Tietê”. Este atualizaria em forma de testamento (palavras de Antonio Candido) a reiterada opção do poeta pela imagem do rio, sinal de sua entrega a todas as “tempestades humanas da vida” – tempestades que lhe permitem vislumbrar e levar “auroras represadas para o peito dos sofrimentos dos homens”, conforme lemos no poema-testamento.
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