Um romance histórico que já nasce clássico
Um defeito de cor (Record, 954 pp., R$ 79,90), de Ana Maria Gonçalves, é desses livros que já nascem clássicos. Não é à toa que Ana Maria Gonçalves conseguiu um feito raro no mercado literário brasileiro. Sendo praticamente desconhecida, pois este é seu segundo livro, obteve o apoio de uma grande editora, que não apenas a publicou como acreditou numa obra de quase mil páginas. Além disso, a autora mineira apostou em um tema já exaustivamente discutido no Brasil, a escravidão, só que de forma original e envolvente. Ana Maria desenvolve aqui um romance histórico de grande qualidade, não apenas no estilo, dinâmico e envolvente, como na pesquisa, profunda como o tema merece, fazendo sua personagem principal, Kehinde, depois rebatizada Luísa Gama, nascer na África do início do século XIX e ser levada como escrava a um lugar muito distante, tratada como mercadoria no navio negreiro e separada da família de uma forma traumatizante. Diferentemente das teses acadêmicas sobre o assunto, que por melhores que sejam não superam a frieza da figura do “observador distante”, Ana Maria consegue levar o leitor a mergulhar no universo da pequena escrava, a sofrer com ela, a viver sua dor e a ter as mesmas esperanças.
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