Poesia de olhos vazados
Precedido de elogios de fontes variadas, cai em minhas mãos Cinco lugares da fúria (Hedra, 114 pp., R$ 20), mais recente livro do poeta Pádua Fernandes. A sensação é de espanto. Trata-se de poesia pública, sem desequilíbrio entre os polos. A ira santa que atravessa as cinco sessões do volume não sacrifica a invenção, a linguagem não ofusca a matéria escura – urbana, brasileira e desencantada – a que dá forma. Quando a poesia é boa, a discussão sobre arte e engajamento se desloca. Este é o primeiro efeito do livro, repelindo rótulos estéticos ou ideológicos. Se alguns torcem o nariz para o Ferreira Gullar mais engajado e preferem a ousadia de A luta corporal, poucos se perguntam se a náusea que acompanha A rosa do povo é de esquerda (e é) ou direita. Como o Antepasso adverte, o leitor de Cinco lugares da fúria percorre um mapa, um mundo substituto, não as próprias ruas. Mas o mapa “morde, é muito feroz” e guarda memória das violências que traçam seu contorno.
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