Benedetti registra em obra algo que se perdeu
A literatura de Mario Benedetti, poeta, escritor e ensaísta uruguaio, está diretamente ligada à sua biografia, principalmente às suas posições políticas, que o levaram a um exílio de 12 anos durante a ditadura no Uruguai. Benedetti deixou o país em 1973, voltando em 1985; nesse período, passou por diversos países. É essa experiência que vai marcar os rumos da sua obra, tanto o exílio como o “desexílio”, palavra inventada por ele para se referir ao processo de readaptação dos exilados ao voltar para casa. Primavera num espelho partido (Alfaguara, 224 pp., R$ 35,90 – Trad.: Eliana Aguiar), romance de 1982 lançado agora no Brasil, é construído a partir de diferentes vozes que, qual um mosaico, pouco a pouco revelam a história e seus personagens. Santiago, homem culto e ativista político, é preso e torturado. Quando a narrativa se inicia, ele está há mais de quarto anos na prisão. Graciela, sua mulher, tem de exilar-se com a filha, Beatriz, e o sogro, dom Rafael. Torna-se secretária e tenta refazer a vida. Apesar de ter formado com Santiago um casal perfeito, percebe que o tempo e a distância os afastam. A narrativa apresenta cinco perspectivas diferentes: as cartas que Santiago escreve à sua mulher da prisão. O cotidiano de Graciela e da filha do casal. O monólogo do pai de Santiago. A perspectiva de Rolando Austero, amigo de Santiago, que acaba se envolvendo com a Graciela. As redações que Beatriz escreve para o colégio. Somam-se a isso os capítulos em itálico, que, sem ter relação direta com a história, narram em primeira pessoa as experiências do próprio Benedetti no exílio.
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